terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um dia no museu

Denis Aparecido Mendes de Oliveira é aluno do curso de História e desde o ano passado se descobriu um professor apaixonado pela profissão. Sua dedicação esmerada ao curso unida à criatividade artística (Dênis é vocalista da Banda Denis Grillo e Os Gafanhotos) permite que ele tenha um olhar singular sobre a profissão que abraçou e uma postura ímpar diante dos alunos. Em todas as conversas que tenho com ele, aprendo muito e adoraria que ele repetisse a experiência de dar mais aulas que eu pudesse assistir.

Sua participação nas aulas de Patrimônios, museus e arquivos foi intensa. Além de produzir uma aula para os seus colegas e para a turma de primeiro semestre do curso, colocou as reflexões em prática com seus alunos.

O texto que segue é um relatório que ele fez para as atividades culturais narrando a experiência de uma visita ao MIS, Museu da Imagem e do Som.



Um Dia no Museu.
Local:
Museu da Imagem e do som – MIS, Av. Europa, 158 – JD. Europa.

“Entre-Temps” – Obras do Museu de Paris.

Palavras chave: Museu – Educação – Escola – Educador.

Sabendo da visita que faria com a sala da 7ª série do ensino fundamental da escola “Ivone Palma Todorov Ruggieri”, à exposição “Entre-Temps” procurei entrar em contato com a temática abordada pelas obras e fiz algumas leituras para instruir os alunos antes do passeio para aumentar a perspectiva que teriam das obras.

A mostra abrange várias obras de vídeoartistas que imprimiram discussões fundamentais para arte contemporânea como Dominique Gonzalez-Foerster, Philippe Parreno e Pierre Huygue e outros expoentes que emergiram na década de 90.

As obras estão ligadas diretamente a temas contemporâneos como solidão, a ideologia capitalista, depressão, a velocidade do cotidiano, estresse, o medo entre outros.

Os alunos sentiram-se mais nas obras. Há um vídeo, por exemplo, que mostra um homem fazendo Cooper e, o tempo todo, dialoga como se falasse para alguém que o ouve, mas não corre com ele. Passa-nos a impressão da velocidade da vida, de saltos em momentos, da maior atenção ao trabalho do que para família e com minhas interferências, até por compreender também a realidade dos meus alunos, fiz observações que os motivassem a pensar em suas próprias vidas e como tratam seus momentos, se aproveitam realmente suas experiências, logo se identificaram, identificaram seus pais ou amigos.

Ao observar as obras entraram nelas, criticaram, concordaram. Ao sair do museu ficou um sentimento bem diferente de quando saíram, mas como historiador eu tenho certeza de que este fato, aquele momento abriu rupturas positivas na educação e na história individual de cada um.

Porém, o ponto mais fascinante ainda foi o trajeto de ida até o museu. A escola fica numa região muito pobre e o museu no bairro dos Jardins, em São Paulo. Ao verem as grandes casas daqueles bairros nobres por onde passamos, enxergando o contraste social em que vivem, eles se espantaram. Ao saber que eles moram em barraco com seis ou sete pessoas e que, naquelas mansões, muitas vezes moravam um casal de velhinhos, eles sentiram o porquê da expressão artística de maneira crítica e o porquê de tantas obras que mostram normalmente coisas tristes.

Esta visita me deu oportunidade de enxergar muito além da sala de aula ou do museu. A quantidade de informação que jorra sobre nós todos os dias, como bairros que fazem contrapontos imensos em relação à distribuição de renda nacional, podem cada vez mais fazer sentido à medida que os alunos entram em contato com as contradições a partir da ampliação da visão de sua realidade e quando passo a construir aulas que considerem muito mais essas relações sociais tão contrastantes.

Complementando ainda costumo dizer, nesta minha curta carreira de educador (que parece ser promissora), dentro da sala de aula, que estar na escola é entender o ser humano, suas criações e tecnologias. E “Ser” humano é ter sentimentos, distintos, espero sempre considerá-los, respeitá-los, pois, só poderemos diminuir a gama de coisas ruins pelas quais hoje temos que temer, quanto mais lemos, vivemos experiências e aproveitamos delas o máximo podendo construir outra realidade.

O mundo não é cor de rosa estas ações não são fáceis, assim como certa vez ouvi numa peça de Shakespeare: “O mundo não para, para que você recolha os cacos do seu coração”, porém, existe a possibilidade de desmoronar os momentos que esmerilham corações, mas para isso temos que ter em mente “o tempo”. O tempo de observar, registrar e refletir. Acredito que assim podemos tornar algo mais viável, mais possível a realidade do educando fazendo com que haja ferramentas para viver e não sobreviver.

Paulo Freire disse algo simples, porém que ecoa mais que teorias longas sobre a educação e que talvez neste momento para muitos educadores possa fazer sentido, diz assim: “Não há Educação sem amor.”

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