terça-feira, 24 de agosto de 2010

Professora, educadora, cuidadora

Uma das possibilidades que se tem como educador é entrar em contato com diferentes experiências e pessoas que sempre nos transformam. Quando era professora do curso de Letras, fui tocada por uma aluna que mais do que conhecimento, ensinou-me muito sobre ser educador-cuidador. Mariotides Gomes Bezerra, que nos deu o texto abaixo de presente, é um SER que faz da educação a ocasião de transformar o mundo. Não o mundo em geral, mas aquele mundo do aluno, mais dele, interno. Lembro-me de uma de suas frases, na defesa da monografia, quando disse: "A escola é o reservatório dos alunos. Mas o que fazemos com estes sonhos?". Ao se formar em Letras, Tide agregou sua experiência como professora do Ensino Fundamental I a uma fé incomensurável no Amor e partiu para um trabalho que só pessoas muito especiais como ela conseguem desenvolver: trabalha em escola hospitalar, com crianças que possuem doenças crônicas.E esta sobre esta vivência que ela nos fala no texto abaixo.Leiam com o coração, deixem-se tocar por toda a sensibilidade e poder de ação que transparecem na prática de Mariotides.

“Professora! Agora aqui é minha escola!”
(Reflexões Sobre o Acompanhamento Pedagógico Hospitalar)

“Ainda que eu falasse línguas: a dos homens e a dos anjos, se não tivesse Amor seria como um címbalo que tine, não seria nada...”
( da carta de São Paulo aos Coríntios)

O que é uma escola? Para quê serve uma escola? Quem pode ir a uma escola? Onde pode ser uma escola?

Numa atitude filosófica, comprometida com os rumos da Educação num país como o nosso, que enfrenta adversidades em todos os setores de atividades, as perguntas acima soam cheias de alternativas, combinando sonhos, esperanças, realidades felizes e infelizes... Concordamos, entretanto, que escola é um lugar de aprendizagem e ensinagem, que serve para reunir as pessoas, de todas as idades, em torno destes objetivos, e, que pode ser em qualquer lugar onde as pessoas desejem realizar esta troca de saberes.

Escola é lugar de sonhos! É lugar de acolhida e de despedida: ponto de chegada e ponto de partida... É lugar de saúde! E o hospital, também não é um lugar assim?!

Por isso, uma escola no hospital é necessária. Isso mesmo! No hospital! Uma escola no hospital é sinal da nossa HUMANIZAÇÃO, da consciência de que somos seres relacionais, potencializados para o Amor fraterno, para a criação, para a superação de dificuldades, o enfrentamento das doenças, para a convivência em grupos, a aprendizagem da vida... Os professores logo se sentem desafiados: como é isso?... Os profissionais da Saúde também: mais gente trabalhando aqui?... As crianças, como sempre elas, com alegria, indicam o caminho: “Aqui vai ser minha escola!”

Há um “novo’ campo de trabalho para os professores: o hospital. Conhecê-lo é um importante caminho no sentido de fazer da Educação uma excelência na arte de viver, conviver, amar e ajudar na construção de uma “nova sociedade possível”, em que todas as pessoas são respeitadas e têm seu lugar.

O Ministério da Educação denomina a esta parte da Educação, considerada parte da Educação Especial, de Classe Hospitalar e Atendimento Pedagógico Domiciliar, e a seu respeito declara:

“ Com relação à pessoa hospitalizada, o tratamento de saúde não envolve apenas os aspectos biológicos da tradicional assistência médica à enfermidade. A experiência de adoecimento e hospitalização implica mudar rotinas; separa-se de familiares, amigos e objetos significativos; sujeitar-se a procedimentos invasivos e dolorosos e, ainda, sofrer com a solidão e o medo da morte – uma realidade constante nos hospitais. Reorganizar a assistência hospitalar, para que dê conta desse conjunto de experiências, significa assegurar, entre outros cuidados, o acesso ao lazer, ao convívio com o meio externo, às informações sobre seu processo de adoecimento, cuidados e ao exercício intelectual.”

Com base neste conhecimento e avaliando minha pequena experiência neste tipo de atendimento pedagógico, compartilho algumas aprendizagens, oportunidades que a vocação de professora me ofereceu para continuar a remar no barco da vida... Eu acredito que qualquer professora pode ser professora no hospital!

Na aproximação do “campo sagrado” da Educação no ambiente hospitalar, é adequado “saber cuidar”, aliás, saber cuidar, creio que é uma atribuição da professora... Partindo desse pressuposto, logo entendi que a abordagem ao aluno hospitalizado deve embasar-se numa visão inter-relacional, considerando seu corpo, muitas vezes sofrido, mutilado, dolorido... sua mente, as realidades social e espiritual, mais sua história, sua identidade, a maneira como o mundo se apresenta a ele e como ele interage com o mundo, sua personalidade.

Evidentemente esta abordagem é adequada para o trabalho com todos os alunos que encontramos pela vida afora, mas, por vários motivos, embora seja viável, esta não é uma prática real na maioria dos casos. No entanto, no hospital não existe outra maneira! Tem que ser assim, ou então, se perde o aluno, sua confiança, sua vontade de estudar... No hospital, a professora lida com a “doença social”, presente em muitas escolas brasileiras e também com a “doença do corpo” que dói, é feia, afasta tanto quanto a social... Nos primeiros contatos com a prática do acompanhamento pedagógico hospitalar, a professora já se dá conta que no hospital se trabalha muito e que Amar dá um trabalho louco! Um trabalho de apaixonada! Um trabalho de Amor! “ É estar-se preso por vontade... Arde sem se ver... Dói e não se sente...” (Camões)

Encarando o aluno desta maneira, a professora-cuidadora, vê dois fundamentos imprescindíveis para o desenvolvimento de seu trabalho: auto-conhecimento e saúde psíquica. Mas isso não é tudo. Ela precisa possuir conhecimento teórico e prático, às vezes, de práticas e rotinas nunca vistas em nenhuma escola! Precisa ser firme e passar segurança, pois ninguém cuida de ninguém “sentindo pena”. Sentir pena é se colocar no lugar da pessoa fragilizada, sem entender todo o contexto em que ela está inserida... A criança (aluno é sempre esperto!) pode mobilizar este sentimento da professora, percebendo-o pode manipulá-lo e colocar-se no lugar de vítima para obter ganhos.

Aprendi que como profissional, é preciso trabalhar, todo dia, a pena de mim mesma, “com pena de mim, não cuido de ninguém...” Que sensibilizar-me é diferente de ter pena, sensibilizando-me, me comovo, não tenho dó, e posso agir com conhecimento, firmeza e segurança, ao contrário, se eu sentir pena, o sentimento de dó transmite à criança/aluno que ela não tem condições, que deve mesmo assumir o papel de “pobre coitada”.

A partir das técnicas utilizadas, que são as mesmas da escola, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, estou muito mais atenta à Pesquisa, ao Conhecimento... Claro, entendo mais de Língua Portuguesa que é minha formação, mas, com os alunos, vou superando preconceitos, entendendo mais da aprendizagem...

O desenho livre, a pintura a dedo, os desenhos de polaridades (bonito/feio, antes/depois, etc), desenhos da família (considerando toadas as possíveis variações), os tipos de traços, a utilização ou não das cores e seus significados, os brinquedos os jogos (principalmente os de corpo humano), os filmes, todas as leituras (de todos os gêneros), filmes e festas, que aliás são “obrigatórias’... Ajudam-me na significação e re-significação da importância e do papel da professora no ambiente hospitalar.

Os avanços dos alunos são importantes! Seu amadurecimento e conquistas na vida, no enfrentamento da doença, nas posturas diante do mundo passam pela escola!

Na realidade, a professora trabalha exatamente o que se trabalha na escola mais alguns aspectos como esclarecer, explicar, aliviar a angústia, recuperar, conscientizar, avaliar condições cognitivas, acalmar e tranqüilizar, facilitar a comunicação e a expressão dos sentimentos, promover o reforço da auto-imagem em decorrência da depressão ou tristeza, estimular, oferecer apoio e atenção, informar, evitar conversas desnecessárias na frente da criança, inserir novos hábitos nas rotinas dos alunos... Verbos que podem ser entendidos, neste contexto, como auxiliares do verbo Amar.

É um trabalho invisível! Mas, que muda o mundo ( começando pelo “mundo” que é cada ser humano)! E que faz as crianças exclamarem alegremente: “Professora, agora aqui é minha escola!”

Nenhum comentário:

Postar um comentário