terça-feira, 24 de agosto de 2010

Olhar sobre o cotidiano

Cristiano Alexandria de Oliveira é nosso colaborador constante. Já demonstrou suas habilidades com a palavra ao escrever poesia e outros textos de caráter literário para o blog. Neste artigo, ele discretamente nos revela outras facetas: ele projeta seu olhar de artista plástico e pensador da contemporaneidade sobre a cidade. E naquilo que parece banal vê oportunidade de reflexão, de leitura. E nos ensina ...
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Sobre as africanas de resina
(Ou:” existe arte popular demais”?)

Cristiano Alexandria de Oliveira


Nas prateleiras das lojas de resina, principalmente na Avenida 25 de março, no centro de São Paulo, é visível o aumento da quantidade daquelas estátuas que representam negras africanas. O brilho da cor da pele e as cores vivas dos ornamentos chamam a atenção dos consumidores, que estão trocando os velhos anjinhos anglo-saxônicos por esta nova e exótica opção.

Observando bem as estátuas, percebe-se que todas elas são baseadas numa etnia única: os sudaneses da África negra, que vivem nas savanas da zona boreal. Esta etnia é caracterizada por indivíduos altos e esbeltos. As roupas e utensílios também distinguem este grupo dos demais africanos. Uma sub-raça dos sudaneses, chamada de “nilóticos”, que habita as regiões às margens do rio Nilo, define melhor ainda o tipo representado. São pessoas altas, membros longos, cabeça pequena e lábios delgados.

Estas características são muito acentuadas nas estátuas. A figura, quando observada num primeiro momento, chama a atenção por parecer desproporcional. Mas basta um minuto a mais de atenção para percebermos a singeleza das formas, a suavidade das curvas, a doçura dos braços que parecem quebrar ao menor toque, segurando lanças de caça, baldes e crianças.

Há um sem número de opções e tamanhos para se escolher. Mas o que mais me chamou a atenção foram as estátuas sem rosto. Herdeiras de uma tendência modernista em escultura, a íntima relação entre o real e o abstrato e a harmonia presente mesmo nas formas exageradas dão à obra um valor notável, tanto que assume valor de mercado. Digo isto porque é mais fácil, hoje em dia, para uma obra de arte ter valor artístico do que econômico, como item de compra em potencial.

Quando eu as vi pela primeira vez, achei que estivesse ocorrendo uma heresia contra um Vítor Brecheret, um Henry Moore ou um Alfredo Ceschiatti. Afinal, a temática, as formas, as idéias, o imaginário moderno em escultura estava ali sendo vendido, em resina, ao lado de um pedaço de papel rasgado escrito em letras garrafais “quebrou, pagou”, misturado com dragões chineses raivosos, miniaturas de espadas, Budas e Shivas. Tudo muito “capitalizável”.

Mas não. Fui obrigado a reconhecer a beleza das africanas magrelas em seus afazeres domésticos. Os famigerados anjinhos anglo-saxônicos permaneciam lá, de forma cristã, os mesmos. E merecem ter a sua beleza barroca reconhecida. As pessoas em volta ora manifestam apoio às africanas, ora reprimem, alguns por puro preconceito. Não preconceito contra os negros. Mas contra a arte.

Eu apoiei. Demorei um pouco, mas compreendi. Compreendi não só o valor daquelas peças, baratas até pelo tanto de história que carregam. Mas compreendi o valor de Bernini, Míron, Antonio Canova e Michelangelo, escultores de base realista, clássica, que se (sub)desenvolveu nos amáveis anjinhos anglo-saxônicos; e o valor de Brecheret, Ceschiatti e Lehmbruck, escultores modernos, voltados para a harmonia das formas geométricas, que se (sub)desenvolveu nas amáveis africanas. Tudo em resina, arte pura, a preços bem mais em conta do que nos leilões.

Afinal, não era isso o que os modernos queriam? Enfim, a arte mais popular, a arte no centro das cidades, nas principais zonas de comércio, dentro de cestas como se fossem mantimentos, compradas por atacado, acessível às classes mais baixas, tão nossa quanto arroz e feijão, causando espanto, tirando as pessoas de seus estados catatônicos, incentivando o diálogo artístico e a crítica até dos que não são críticos.

Pois é. Passeando pelas ruas de uma São Paulo carente, encontro ao menos um sorriso dos heróis de 1922, escondidos atrás das frias prateleiras de uma loja de resinas

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