terça-feira, 24 de agosto de 2010

Santo Agostinho e Ingmar Bergman

Para encerrar a disciplina de História Medieval, costumo passar para meus alunos o filme dirigido por Ingmar Bergman em 1956 O Sétimo Selo e peço-lhes que façam uma resenha para relacionar o filme às discussões da aula. Novamente, Marcel Alves Martins foi além. Disse-me que acordou à noite e inspirado por seus estudos escreveu o texto abaixo. Temeroso, não sabia se aceitaria a criatividade ao invés da resenha proposta como atividade. Como não aceitar? Texto reflexivo, claro, fruto de leitura cuidadosa da bibliografia do curso e daquela já pesquisada.

Mais uma vez, Marcel, nós agradecemos sua generosidade.

Santo Agostinho e Ingmar Bergman
Marcel Alves Martins
Na cidade de Tagaste, atual Argélia, nasceu Aurélio Agostinho no ano de 354. Foi um célebre personagem de sua época e deixou-nos um grande legado intelectual, “um dos maiores pensadores da Antigüidade cristã, sendo o teólogo que mais influenciou o cristianismo ocidental” (KLEIN, 2007, p. 105) e que continua a influenciar o pensamento cristão atual, (prova disso é o fato de ser o santo mais citado no Catecismo da Igreja Católica e der ser estudado e admirado por cristão advindos da Reforma Protestante).

O intuito de citá-lo na análise do filme Sétimo Selo nada mais é do que mostrar sua influência na forma do homem medieval pensar! A meu ver, todo o período da Idade Média está sob a autoridade intelectual deste pensador, já que, com algumas de suas obras (Cidade de Deus, Confissões, Livre Arbítrio, Trindade, dentre outras), expressa bem aquilo que nos foi transmitido no filme, já que “à visão agostiniana permanecerão fiéis todos os medievais até Tomás, e muitos mesmo depois dele.” (MONDIN, 1981, p. 149)

A princípio, a visão dicotômica de mundo que tem o homem medieval pode estar bem relacionada com a visão da “cidade de Deus” e da “cidade dos homens” de Agostinho, além das noções de pecado e graça, liberdade e libertinagem, etc. A idéia de que não somos desta terra, mas passamos por ela, está bem expressa na maneira de ver a realidade tanto de um como de outro. Para o bispo de Hipona, o Bem e o Mal são duas realidades ontológicas que vivem em um “eterno combate” entre si. O mundo medieval é marcado por este combate, onde oratores e bellatores, representantes do Bem, travam uma batalha respectivamente espiritual e terrena contra as forças do Mal, o pecado e a morte. No filme está bem explícita esta visão, onde o Mal (a Morte) está travando um jogo com o cavaleiro temente a Deus, ansioso por obter respostas, por ver Deus “face a face”, que para Agostinho era a beatitude, “bem cuja posse satisfaz todo o desejo e, por conseqüência, confere a paz. (...) ela sempre visa fins práticos e seu ponto de aplicação imediata é o homem” (GILSON, 2006, p.17).

O filme revela que este, de fato, é o desejo do medieval: ver Deus, descobrir o Deus “escondido” atrás do véu (que no quadro de Bosch, Jardim das delícias, está velado pelo azul do céu) já que “a beatitude pode implicar, e implica, o conhecimento da verdade como condição essencial (...)” (GILSON, 2006, p 18). Isso permeia e move a vida do indivíduo na Idade Média: querer dar sentido à sua existência, fazer a vontade de Deus aqui na terra e Nele encontrar a plena realização, conhecer a Verdade (Deus). Esta também foi a busca de Agostinho, que dizia: “(...) fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te.” (AGOSTINHO, 1984, p.15) E este, assim como o cavaleiro no filme, buscou conhecer, encontrar e provar sua existência (Cf. GILSON, 2006, p. 31).

Este sentimento, este desejo, esta forma de encarar a realidade vai determinar muitas atitudes do homem medieval. Vai-se às Cruzadas movido por este sentimento, que no filme está claro quando mostra o encontro do fiel escudeiro com o “teólogo” (que já se transformara em ladrão) motivador da ida do cavaleiro à jornada na Terra Santa. Este mesmo sentimento é que fundamenta a morte das “bruxas” (tendo na mulher como aquela que atrai o mal, outra característica comum com Agostinho, que também tem uma visão negativa da mulher) e nas duras penitências dos fiéis, tudo isto tendo em vista ganhar a “vida eterna”. A idéia que o filme nos dá é a de que não importa preservar a vida deste mundo, mas garantir a vida futura em Deus, já que a morte faz parte do processo natural da vida e não é o fim definitivo, mas o início para uma “vida eterna” (Cf. FRANCO JUNIOR, 2006. p. 137). Por isso, é até um bem queimar e penitenciar o corpo coberto pelo pecado, pois sendo ele purificado a alma ganha o seu lugar junto de Deus, encontra sua quietude, segundo o pensamento de Agostinho. Sendo assim, o homem deve devotar-se na sua itinerância rumo a Deus pela negação do corpo e elevação da alma.

Esta “não preocupação” com a vida terrena está relacionada à idéia de um “Juízo Final iminente”. Esta é outra característica em comum que encontramos com o pensamento agostiniano. Para o homem medieval a vinda do Senhor está prestes a acontecer; antes de vir, Ele lança a peste sobre a humanidade que, por meio da penitência, da oração e da expiação dos pecados, se volta a Ele, de modo a encontrá-los vigilantes e purificados. Esta mesma noção nos passa Agostinho quando diz: “Tenho certeza de que Aquele que é, agora, nosso advogado de defesa, será nosso juiz. É possível que O tenhamos como nosso defensor e que O temamos como juiz? Não! Já que totalmente confiantes O elegemos para nos defender, preservemos nossa esperança nEle quando vier julgar-nos.” (apud ROTELLO, 2002, p. 173). O importante é apresentar-se diante deste juízo final tendo cumprindo em terra aquilo para que, de fato, viemos a ela; por isso o medo não era o da morte, mas sim de como chegaríamos diante de Deus na “pós-morte”. Com isso, dá-se grande importância à esmola, ao jejum, aos sacramentos e até mesmo a ida às Cruzadas, já que eram-lhes garantido a absolvição dos pecados, a bênção e a proteção papal (Cf. FRANCO JUNIOR, 2006, p. 137; ALBERIGO, 1995, p. 192): “A todos os que partirem e morrerem no caminho, em terra ou mar, ou que perderem a vida combatendo os pagãos, será concedida a remissão dos pecados” (URBANO II, 1095). A visão negativa da morte, como fim da existência do cotidiano humano, inicia-se a partir do século XII (Cf. FRANCO JUNIOR, 2006, p. 137).

Com relação às Cruzadas é importante ressaltar sua importância, não sei se religiosa (já que estas só foram três), mas econômicas e expansionistas, já que desde a “primeira expedição, os motivos espirituais e desinteressados receberam o assédio violento e constante das ambições políticas e dos apetites materiais. (...) converteu-se para muitos numa aventura lucrativa” (ROUSSET, 1980, p. 14). O cenário político da época é favorável à instauração das Cruzadas (Cf. ROUSSET, 1980, p. 14), e com elas, o contexto sócio-econômico é alterado, possibilitando a mudança na forma daquela sociedade organizar-se. Poderíamos dizer que com as expedições às Terras do Oriente foram lançadas bases para uma mudança do meio de produção feudal para um incipiente capitalismo.

Outro aspecto interessante a ser ressaltado é a questão da lealdade, da manutenção da palavra, do “contrato verbal”. No filme isto pode ser identificado seja na fidelidade do escudeiro ou na garantia de proteção dada pelo cavaleiro. Aqui já está expresso um contratualismo de caráter individual, onde alguns indivíduos se comprometem entre si (Cf. FRANCO JUNIOR, 2006, p. 151). Em outra instância, Agostinho também dá grande importância à lealdade e à fidelidade nos seus relacionamentos:

“Na época em que eu comecei a ensinar na cidade em que nasci, travei relações com um amigo que, tendo os mesmos interesses de estudo, veio a ser muito querido. (...) poucos dias mais tarde, estando eu ausente, a febre voltou, e ele morreu. O sofrimento encheu-me de trevas o coração (...). Somente as lágrimas me eram doces e substituíam o amigo no conforto do meu espírito” (AGOSTINHO, 1984, p. 86-87).

As situações apresentadas no filme e por Agostinho são distintas, mas o espírito que as permeiam é o mesmo! Fidelidade e o compromisso com o outro (sendo este amigo, senhor ou Deus) vão nortear a vida do homem medieval e dar forma aos tipos de relacionamentos estabelecidos na sociedade, seja ela entre senhor/vassalo ou homem/Deus.

São estas características que estão presentes no imaginário do homem medieval e no pensamento de Santo Agostinho e que julgo pertinentes serem lembradas na análise do filme O Sétimo Selo. Creio que fica mais fácil compreender a realidade medieval apresentada no filme relacionando-a com as idéias e teorias que serviram de sustentação e que ajudaram a constituir o meio no qual eles viviam. Já que se demora séculos para construir ou modificar o imaginário podemos dizer que o pensamento de Agostinho (354-430), demorou mas influenciou e regeu a forma de pensar do homem ocidental por um extenso período.

BIBLIOGRAFIA


AGOSTINHO, SANTO. Confissões. 10. ed. São Paulo: Paulus, 1984.
ALBERIGO, Giuseppe (org.). História dos concílios ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.
GILSON, Étienne. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. São Paulo: Discurso Editorial ; Paulus, 2006
FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do Ocidente. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.
KLEIN, Carlos Jeremias. Curso de história da Igreja. São Paulo: Fonte Editorial, 2007.
MONDIN, Battista. Curso de filosofia. São Paulo: Paulus, 1981. Vol. I
ROTELLO, Jonh E. Santo Agostinho dia a dia. 2.ed.São Paulo: Loyola, 2002.
ROUSSET, Paul. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
URBANO II. Discurso no Concílio de Clermont. 1095.

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