terça-feira, 24 de agosto de 2010

Este é um país que vai pra frente

Rafael Freitas apresenta-se como “Especialista em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), formado em Letras pela Universidade do Grande ABC (Uniabc), professor de Língua Portuguesa da rede estadual e, claro, apaixonado por futebol.” Mas quem conhece o Rafinha sabe que ele é muito mais do que isso. Tive o privilégio de conhecê-lo quando ingressou no curso de Letras. Menino cheio de sonhos, e cheio de medos também. Rafael amadureceu, formou-se com louros apresentando um TCC maravilhoso e ganhou o mundo. Talvez o Rafa não saiba que quem mais ganha, na verdade, é o mundo, por tê-lo por aqui. Rafinha deixou marcas profundas de garra e alegria em todos os que o conheceram. E hoje, apresenta seu texto neste blog. O assunto é polêmico.

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De Copas e Paus
Rafael Freitas

Todos nós sabemos, pois foi amplamente divulgado pela mídia, que o Brasil irá sediar pela segunda vez o campeonato mundial de futebol. Candidato Único, foi simples e fácil: bastou apresentar um caderno de encargos, prometerem mundos e fundos,apresentar vídeos onde os estrangeiros assistem que o Rio de Janeiro continua lindo, que o país tem uma infra-estrutura de primeiro mundo, e que é capaz de sediar eventos de porte internacional com sucesso, como os Jogos Panamericanos e o Mundial de Fórmula 1 para que tudo se encaixasse na mais perfeita ordem; afinal de contas, a copa do mundo é nossa...

O que mais me intriga é algumas situações que me levam a pensar o quanto o mundial de 2014 será um sucesso: é claro que o presidente do país teria de estar presente, mas e todos os outros políticos também? Estariam buscando mostrar as maravilhas de seus estados, com o intuito de sediar um grupo, apenas para constar na história de que foi palco de um (eu disse um!!!) jogo na copa? Estádios? Ah, temos vários, todos em perfeitas condições: Fonte Nova, Pacaembú, Mineirão, Morumbi... (só quem já freqüentou um estádio sabe do amplo estacionamento, banheiros limpos, lanchonetes adequadas, fácil acesso para portadores de necessidades especiais, etc, etc...)Se fosse apenas isto, vá lá, mas tenho minhas desconfianças...

E o mais curioso foi a presença do escritor Paulo Coelho na cerimônia de diplomação do Brasil para a Copa: até onde minha memória permite me relembrar, nunca vi Paulo Coelho escrever um livro sobre futebol, mas... comparar futebol ao sexo, para discutir o que é melhor ou pior é algo, com o perdão da palavra, broxante. Nélson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade e Luis Fernando Veríssimo, só para citar alguns, em termos futebolísticos, teriam mais direito de serem homenageados, por sua obra visando o bem da bola.

Todos nós somos apaixonados por futebol, e por isso devemos ter as coisas feitas às claras, bonitas, como um drible ou uma grande defesa. Bonito é ver cidadãos educados, formados e unidos, cientes e conscientes de que a Copa é feita para que um país progrida e cresça, assim deve ser o objetivo de um país que sedia uma copa. Bonito é ver o que os alemães fizeram ao perder a semifinal para a Itália, em 2006. Junto ao portão de Brandemburgo, gritavam: “perdemos uma copa, ganhamos uma história”. É natural, vindo de um povo que tem educação.

Educação? Sim, futebol e educação estão lado a lado. Como professor, penso que, ao educarmos nossas crianças, adolescentes e adultos, estamos não só ensinando matérias, mas procurando formar cidadãos críticos e conscientes, que possam fiscalizar e observar de que forma esta copa estará sendo organizada, cobrar que tudo corra na mais perfeita ordem. E não só a copa, mas quaisquer outras coisas que venham a influenciar, nossa casa, nosso bairro, a sociedade, o mundo. Mas penso que infelizmente, no patamar em que estamos, a copa não passará de um circo, armado para distrair e alegrar a sociedade, enquanto o governo entrará com o pão para quem tem fome e durante a festa, eles farão a festa em cofres públicos, superfaturamento, lobistas, de forma que, se não estivermos de olhos bem abertos, ficaremos com o pão e eles, com o banquete. Não se deve brincar com o futebol, não se deve brincar com o povo. Estamos de olho!

PS: Já que não homenagearam ninguém de fato e direito, lembrei de você, Drummond.

No estádio, na praia, na rua
Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma, forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
Na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São vôos de estátuas súbitas
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
– afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.

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