O texto a seguir foi produzido na disciplina de História Medieval. Foi pedido aos alunos que a partir do Fabliau da Cocanha (séc XIII) e da Viagem à São Saruê (séc XX), redigissem um texto que explanasse sobre:
O conceito de imaginário e mentalidade;
Tempo e espaço;
Mito e utopia.
A aluna Queila Cristiane de Lima Rodrigues conseguiu produzir um trabalho que alia a compreensão dos conceitos na síntese à interpretação das poesias mediante as leituras propostas.
Segue o texto de Queila. Deliciem-se!
O Imaginário é um conjunto de imagens visuais e verbais formado por três modalidades: o mito, a ideologia e a utopia. Segundo Franco Júnior (1998, p.17) o mito “foca sua intenção no passado”, a ideologia “projeta no futuro as experiências históricas do grupo” e a utopia “parte do presente na tentativa de antecipar ou preparar um futuro que é a recuperação de um passado idealizado”.
Esta formação se dá por intermédio da sociedade que “é ao mesmo tempo produtora e produto de seus imaginários”. (FRANCO JÚNIOR, 1998, p.17). Porém, deve-se levar em consideração que o imaginário produzido pela sociedade não está dissociado daquilo que já lhe foi estabelecido culturalmente, ou seja, a criação do imaginário está ligada às próprias imagens fornecidas por ele.
O conceito de imaginário de que estamos tratando, cabe dentro de um outro conceito que é o de mentalidade. Este, encontra-se diretamente ligado aos valores sociais, à questões intrínsecas aos aspetos formativos do homem (regidos pela tradição). Algo que pode ser adaptado a outras épocas, quando adquire um novo formato, porém, mantém a mesma estrutura.
Em “O imaginário medieval” Le Goff (1994, p.35) – a partir de uma perspectiva Marxista - utiliza a Idade Média e o feudalismo para exemplificar esta “adaptação”, quando diz que: “A Idade Média, assimilada ao feudalismo, desdobra-se entre a Antiguidade, caracterizada pelo modo de produção escravista, e uns Tempos Modernos definidos pelo modo de produção capitalista”. Nota-se aqui que os tempos mudaram, mas a mentalidade parece permanecer a mesma. Dessa maneira, a conclusão a que podemos chegar não é de uma mentalidade imutável, mas da necessidade de um longo processo para que esta mudança de fato aconteça.
Nos textos O Fabliau Francês e São Saruê, A Cocanha Brasileira - reunidos oralmente - podemos nos deparar com referências que remetem à estas idéias como por exemplo, a questão temporal. O Fabliau é datado de meados do século XIII, enquanto São Saruê se aproxima muito mais da atualidade (séc XX), no entanto, o conteúdo é o mesmo. Com relação ao espaço também encontramos semelhanças, pois tudo acontece num lugar onde no presente de forma concreta não conseguimos chegar a ele.
Fica clara a noção de mito, a medida em que tratam de acontecimentos pertencentes ao passado que justificam o presente e trazem para ele um ensinamento com relação às atitudes futuras, ou seja, a idéia de tempo cíclico. “(...) o mito situa a perfeição social no passado, esta também encontra-se contida no futuro, devido a concepção cíclica do tempo, típica do pensamento mítico.” (FRANCO JÚNIOR, 1998, p.21).
“(...)
Ele me enviou a uma terra
Onde vi muitas maravilhas:
(...)
Pois fui louco
Quando de lá saí
(...)
Se vocês estão bem,
Não mudem por nada,
Senão podem acabar mal
(...)”¹
Já a utopia se evidência pela negação da realidade presente, como contra-ponto daquilo que se tem com aquilo que se deseja ter. “(...) o imaginário utópico é um produto da história que nega a história”. (FRANCO JÙNIOR, 1998, p.20). É pautado por referências criadas pelo mito e apropriadas por determinados grupos em determinados períodos, de acordo com suas necessidades.
“(...)
Mas adiante vi uma cidade
como nunca vi igual
toda coberta de ouro
e forrada de cristal,
ali não existe pobre
é tudo rico, afinal.
(...)”²
Ao analisarmos estes conceitos, é importante perceber que nenhum deles é auto-suficiente, pois são resultado de um entrecruzamento entre eles próprios e por isso não podem ser pensados isoladamente.
¹ FRANCO JÚNIOR, Hilário. Cocanha: várias faces de uma utopia. p.22 e 31.
² Ibid., p.168.
BIBLIOGRAFIA
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Cocanha: várias faces de uma utopia. São Paulo: Ateliê, 1998.177p.
______________. Cocanha: a história de um país imaginário. Prefácio de Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.313p.
LE GOFF, Jacques. O imaginário medieval. Tradução Manuel Ruas. Lisboa: Estampa, 1994, 367p.
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