terça-feira, 24 de agosto de 2010

Patrimônio e ideologia

Uma das coisas que mais me fascinam no magistério é poder descobrir em cada aluno sua subjetividade. E a grande mágica acontece quando o aluno e o professor, vinculados pelo desejo de saber, se encontram e brilham juntos.

No primeiro semestre de 2009 tive uma experiência maravilhosa numa turma de 5º. Semestre de História. É uma turma brilhante, viva, muito intensa e criativa. Vocês já leram alguns trabalhos produzidos por alunos desta turma: Marcel, nosso permanente colaborador, Alecos, que possui uma escrita instigante capaz de traduzir com cuidado os desdobramentos de sua inteligência minuciosa, Gideoni Cardoso da Costa, com um olhar criativo e inovador sobre o mundo e Flávia Silva, pesquisadora apaixonada que ainda inscreverá seu nome na historiografia brasileira.

Estes meninos são apenas uma amostra do brilhantismo desta turma. E juntos, vivemos um momento especial. Uma das aulas que realizamos neste semestre foi sobre globalização e regionalismo, diante da sociedade do espetáculo. E esta aula mexeu com todo mundo. Mas um par de olhos vivos me chamou atenção. Rutimiriam, sempre muito atenta, mas quieta, logo se manifestou encaminhando-me por e-mail um texto cheio de idéias que foram além do conteúdo que tivemos condições de discutir em 90 min.

O conhecimento em construção é assim...permanece para além da aula e lá fora cresce, toma corpo. E Rutimiriam deu corpo às nossas discussões.

Pena que aqui não há imagem de seus olhos. Porque o saber só faz sentido quando toca, pois só quando toca transforma. E como brilham os olhos desta menina!

Abaixo, segue a generosidade que teve ao compartilhar o texto de sua avaliação conosco.

Relação Ideologia X Patrimônio Cultural
Rutimiriam Ferreira Porto Costa


“Sociedade propriamente histórica” segundo Marilena Chauí, é o termo que identifica uma sociedade específica que desenvolveu ao longo de sua existência, ferramentas para controle de massas, por meio da Ideologia. Essa Ideologia não exerce controle específico do dominante para o dominado, ela necessita de uma adesão total de crenças já que a divisão ideológica feita, não está centrada na divisão de trabalho ou financeira dentro daquela sociedade, mas ela deve representar uma divisão universal, ou seja, aquela determinada cultura, aquele determinado país torna-se a referência do que há de melhor para ser seguido. Mas não basta implantar um modo de pensar e viver só aparente, é assim que deve viver também a sociedade que a implanta. Nicolau Sevcenko(1999, p.123) cita dados concretos sobre a interatividade dos americanos com os meios visuais interativos “Vinte e três milhões de americanos estavam conectados com a rede em 1998, com as adesões crescendo a cada dia. Em meio a esse turbilhão de imagens, ver significa muito mais que acreditar.”

A justificativa para que vários povos de diversas culturas acreditem e aceitem como verdade que seu bem estar e seu progresso estejam vinculados a similaridade aos padrões de comportamento e consumo dos países mais ricos, foi desenvolvida por várias gerações que se moldam e se mascaram apoiadas em explicações míticas ou teológicas sobre sua origem e permanência, atribuindo-se a si mesma autoridade e poder.

Isso só é possível porque segundo Marilena Chauí (1981, p. 19) “o campo da ideologia é o campo do imaginário, não no sentido de irrealidade ou de fantasia, mas no sentido de conjunto coerente e sistemático de imagens ou representações tidas como capazes de explicar e justificar a realidade concreta.”. Esse sistema é elaborado para ocultar o domínio de um grupo social sobre o outro e esconde-se e fortalece-se sob a imagem da globalização, ou seja, todos devem ter acesso às novas ordens mundiais para que possam fazer parte dela.

As diversas formas de mídias e a informatização bombardeiam as sociedades pelo mundo todo com sua ideologia através da “Indústria Cultural” que é o meio para realização da cultura dominante. Mas não seria possível tal efeito caso houvesse por parte das sociedades que não as dominantes, o reconhecimento de que seu próprio Patrimônio Cultural lhes basta e que é possível tirar dele os subsídios para manutenção de sua existência futura dentro das suas reais e particulares necessidades, e não as que são ditadas pelo modal. O Patrimônio Cultural de um povo está ligado a sua identidade e interesses, e por temor a essa identidade é que a ideologia prega a descartabilidade e a renovação, seja de imagens como as das igrejas, monumentos, literaturas, caminhos, heróis, enfim tudo que possa lembrar o momento de unificação daquele povo ao longo da sua história, esses símbolos devem parecer obsoletos e ultrapassados dando lugar ao “atual”.

O pensamento, que é a maior área de atuação da ideologia deve ser mudado e adequar-se ao pensamento global através da alienação. Marilena Chauí defende que uma poderosa arma contra os discursos ideológicos seria o contradiscurso, não no sentido de preencher as lacunas em branco deixadas por ele, mas encontrar pontos divergentes em si. É nesse ambiente de distorções e disfarces que se concretiza o imperialismo. Um contradiscurso poderia encontrar bases a partir da apropriação e conscientização de cada comunidade de seu Patrimônio Cultural. O sentimento de identidade e de cidadania estaria fortalecido e questionaria a autencidade de documentos e monumentos utilizados pelos outros Estados. Em contraposição ao que deve ou não entrar em desuso, mantêm-se os registros e monumentos da historiografia da “sociedade propriamente histórica”, aquela responsável pelo desenvolvimento da humanidade, segundo Le Goff em suas diversas formas, seja pela arquitetura, escultura ou como documento histórico escrito, os documentos servem de testemunho do poder. Esse poder objetiva ficar registrado na memória coletiva a fim de permanecer e mostrar às gerações futuras sobre sua existência, e, mais que isso, avisando e instruindo as massas sobre sua força.

Outro artifício é o discurso para as massas onde se ignora o individual. Esta é uma questão importante a refletir. O indivíduo na sociedade atual não existe, o que existe é a busca de um espelho para que ele possa escolher com quem mais se identifica, ele busca seu eu no outro para que possa encaixar-se em algum nicho. Em sua obra “Sociedade do Espetáculo”, Guy Débord percebe que essa projeção da imagem transforma o cotidiano em cenas de um Espetáculo, onde as pessoas escolhem atuar na vida real desempenhando um determinado papel estabelecido de acordo com suas possibilidades de consumo. Existe então uma confusão do real de fato que se transforma em realidade condicionada, repetida e divulgada inconscientemente. “O espetáculo – diz Débord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’.”

Enxergar-se enquanto indivíduo pertencente a uma realidade regional e distanciar-se do ser consumidor globalizado torna-se uma possibilidade cada dia mais distante, porque o que a grande massa tem como projeto de futuro está desenhado a partir de estéticas preestabelecidas e negá-lo causaria uma perda de referências, esse vazio precisaria ser preenchido com uma nova imagem, mais independente, mais autêntica, mais concreta, mas onde ela está? Em suas memórias culturais? Talvez.

Gilmar de Carvalho, um pensador das produções do povo nordestino, expressa esse desejo falando de raízes, “Viemos do sertão. Essa negação problemática é responsável por muitos traumas. Queremos deixar de ser caboclos e assumir novos códigos, na marra. Fomos ingleses no tempo da Casa Manchester. Passamos para a França com a bandeira tricolor dos paquetes da Boris Frères. Durante a Segunda Grande Guerra, fomos invadidos pelos norte-americanos que até hoje não saíram daqui e trouxeram uma bebida gasosa, cuja fórmula de fabricação é guardada a sete chaves. Pior: trouxeram um estilo de vida e uma visão de mundo. Muitos ainda se deslumbram com o império hegemônico que dá visíveis sinais de decadência. O sertão se degrada na periferia da cidade. Esse desgaste se acentua com a pauperização das manifestações culturais vindas na bagagem dos migrantes.” Ele completa seu protesto com um saudosismo das quadrilhas e pastoris já extintos, e encerra com as palavras que não há como substituir e nada melhor para concluir: “E assim caminha a Humanidade. E assim vamos levando tudo isso, rindo da própria desgraça, legitimando o que não merece e levando a sério o que deveria ser objeto de escárnio.”

Bibliografia

CHAUÍ M. Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas.2ed.São Paulo: Moderna, 1981.220p.

CARVALHO, G. Ofícios, tradição e gambiarra. Disponível em: http://angelica.hoeffler.zip.net/arch2008-03-09_2008-03-15.html. Acesso 30 mar.2009.

DÉBORD, G. Sociedade do Espetáculo. Disponível em: http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/comentariosociespetaculo.pdf. Acesso 30 mar.2009.

LE GOFF, J. História e Memória. Tradução Irene Ferreira.al. 2ed.Campinas:UNICAMP, 1996.554p.

SEVCENKO, N. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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