terça-feira, 24 de agosto de 2010

tradição e modernidade

Apresentar Gilmar de Carvalho não é fácil. Advogado, jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica, professor da UFCe fariam dele apenas um erudito. Mas Gilmar é muito mais. Acima de tudo um homem sensível. Sente o Ceará, terra que lhe viu nascer, pulsar em cada poro. Gilmar respira e exala cultura popular. É pesquisador e pensador das produções deste povo que ele faz questão de conhecer. E valorizar. Gilmar é referência. Referência de um homem apaixonado pela pesquisa, que mesmo sem receber financiamentos para tal, produz muito. Viajou todo o Ceará, documentou as vozes que ecoam de uma cultura material ou não e publicou muito. Entrou nas casas de rabequeiros, assistiu santeiros prepararem o barro, provou doces das quituteiras, compartilhou anos de amizade com Patativa de Assaré, de quem é o maior pesquisador. O texto de Gilmar combina de maneira única crítica mordaz e sensibilidade poética. Gilmar é patrimônio. Não institucional, fruto de um poder elitizado que visa se perpetuar forjando uma memória. Gilmar é um patrimônio do homem cearense, que cria gado, que cultiva a terra, que vende folhetos nas feiras, que faz xilogravuras e reza para o Padre Cícero. E como este homem-patrimônio é generoso.

Permitiu que publicasse um de seus textos neste blog. Aproveitem!


Ofícios, tradição e gambiarras
Gilmar de Carvalho
Como os ofícios tradicionais conseguem sobreviver na contemporaneidade, num contexto de predomínio das novas tecnologias?

Pode-se chamar de anacronismo a permanência de ourives, barbeiros, modistas, lambe-lambes numa Fortaleza que tem pretensões de ser metrópole?

A tradição é a fixação de práticas que se sedimentaram, ao longo do tempo, pelo fato de fazerem muito sentido para as comunidades.

Elas resultam de um processo lento de fixação, se baseiam numa transmissão que muitas vezes não é compreendida como tal, e passa pelo olhar atento, pela experimentação às escondidas e pela necessidade de fazer para sobreviver.

Essa aprendizagem escapa à objetividade das políticas culturais e se inscreve como um processo informal. Nem sempre se aprende porque se quer, mas porque é preciso.

São recorrentes os relatos de músicos que não tiveram professor e aprenderam vendo parentes e vizinhos tocarem. Na negação da iniciação sistematizada, entra em cena o conceito de Dom.

Atribui-se a Deus uma habilidade que é cultural. Mas essa atribuição também está prevista nos códigos da cultura.

Curioso como prevalece no Brasil a simultaneidade de tempos. Temos o arcaico convivendo com a tecnologia de ponta no mesmo espaço e ao mesmo tempo.

Essas assimetrias dão uma idéia da complexidade de uma discussão que deveria ser levantada mais vezes.

Raízes

Fortaleza é uma grande cidade sertaneja. E nisso não vai qualquer tentativa de depreciar a quarta maior (?) cidade brasileira.

Viemos do sertão. Essa negação problemática e responsável por muitos traumas.

Queremos deixar de ser caboclos e assumir novos códigos, na marra. Fomos ingleses no tempo da Casa Manchester. Passamos para a França com a bandeira tricolor dos paquetes da Boris Frères. Durante a Segunda Grande Guerra, fomos invadidos pelos norte-americanos que até hoje não saíram daqui e trouxeram uma bebida gasosa, cuja fórmula de fabricação é guardada a sete chaves. Pior: trouxeram um estilo de vida e uma visão de mundo. Muitos ainda se deslumbram com o império hegemônico que dá visíveis sinais de decadência.

O sertão se degrada na periferia da cidade. Esse desgaste se acentua com a pauperização das manifestações culturais vindas na bagagem dos migrantes.

Durante muito tempo tivemos pastoris. Os pandeiros eram feitos de latas de goiabada e a percussão obtida graças às tampas de garrafas de guaraná batidas que chacoalhavam nos buracos abertos com facas.

O partido azul e o encarnado faziam a festa das crianças de um tempo não muito distante. Borboletas pequeninas voejavam. Ciganas do Egito usavam colares, moedas nos turbantes e lenços. A Diana fazia a síntese entre as duas cores. O auto de natal de origem ibérica se perdeu nos escaninhos mais recônditos da memória.

Os bois de armação de madeira, cobertos de chitas, com aplicação de espelhos e miçangas, não saracoteiam pelas ruas. Hoje, são atrações para turistas e não a celebração dramática do ritual da morte da vaca preferida do fazendeiro pela mulher grávida do vaqueiro.

Os brincantes já não pintam bigodes com lápis de sobrancelha e não se vestem de chita. As quadrilhas juninas são micro-empresas. A adesão a elas se dá como às escolas de samba cariocas: o pagamento de uma prestação mensal garante a roupa de brocado, lanches e transporte. Os ensaios são feitos com “play-backs” e novas coreografias seguem a sintaxe do espetacular. Com paus e fitas, os brincantes batem palmas e fazem seu show. Dá para ser contra?

E assim, entre tensões e aplausos, recusas e adesões, esse embate vai se construindo no espaço da cidade, no tempo de agora e sempre.

Pregões
“Vassoura de espanar, vassourinha e espanador”, “Panelada e fígado gordo”. “Doce gelado, ô doce”. Os pregões do passado são permanentemente atualizados. Hoje, temos o pregão polifônico dos vendedores de água de coco, espécie de ladainha, poesia sonora, música urbana, entrecortada por sincopas, aliterações e repetições (oco, coco, co, ô, água), praticamente pendurados às janelas dos ônibus, num ritual de sobrevivência que comove e incomoda.

Ainda persiste, em menor escala, o grito de “borracha pra panela de pressão” e “desentupidor de fogão a gás”.

Mas os pregões amplificaram seu alcance. O carro do sorvete oferece, por meio do sistema de som: “quatro bolas por apenas um cinqüenta centavos”. E conclui, agregando praticidade ao produto: “ já temos a vasilha”.

O carro do bolo oferece uma diversidade de sabores e cobra apenas dois reais por unidade. Se levarmos em conta que esse dinheiro não paga uma fatia nas doceiras sofisticadas da cidade, dá para se ter uma idéia do que se está a consumir.

A tapioca é vendida nas bicicletas, com direito a amplificador acoplado ao guidom e é oferecida na hora do café da manhã, com o pregão tendo como trilha uma das canções religiosas de Roberto Carlos.

As frutas vêm da Ceasa e chegam as nossas portas, facilitando nossas vidas.

O menino de recados foi substituído pelo serviço de entrega, o “delivery” que deixaria irritado o defensor da exclusão de língua estrangeiras em nosso léxico.

Como colocar barreiras na língua? Voltaríamos ao tupi, aliás, idéia que vale ser cogitada. E para que mais pregão que o grito do varejo? Se Deus não é surdo, o consumidor tampouco. O insuportável 30/ 60/ 90/ 120/ 180 de boa parte dos comerciais recorre a uma estratégia do rádio que, por sua vez, busca nas feiras seu ponto de partida. A mídia se sofistica, mas o apelo continua o mesmo.

Espelho

Qual é nosso sonho de cidade? E nosso ideal de consumo?

O inchaço da cidade não significa crescimento. A proliferação de “shoppings”, “flats”, franquias e bandeiras de cadeias de hotéis acentua o “apartheid” social.

Vivemos uma cidade sitiada. Os ricos se sentem ameaçados e elevam os muros de suas casas. Os condomínios estabelecem uma vigilância panóptica, onde o “grande irmão” do show televisivo atua de verdade.

Os arrastões não poupam ninguém e os carros blindados não previnem de todas as pedradas.

Construímos uma cidade a partir de normas de etiquetas, do que importamos dos grandes centros e esquecemos que o “lixo” nem sempre se comporta debaixo do tapete.

A economia informal irrompe, agressiva e se alastra pelo entorno da Catedral. O Beco da Poeira é um dos lugares mais movimentados de Fortaleza, apesar das ruas estreitas, das proteções de plásticos e dos fios descascados que transformam aquilo tudo numa bomba relógio que, graças a Deus, não foi nem será detonada.

Arcos inúteis, enfeites que arquitetos e urbanistas implantam nas praças e espaços públicos se tornam estruturas para vendas, moradia e lazer. Tudo é ressignificado pelo povo.

A propaganda governamental (em todos os níveis) trabalha com o estereótipo. Quem vê a propaganda do banco regional pensa que está no campo da ficção, tão pasteurizadas e limpas são as imagens do comercial.

Temos dificuldades em conviver com nossa realidade de desdentados, gente feia, mas cheia de garra, com determinação e espírito empreendedor.

Seremos melhores quando adequarmos nossos sonhos ao nosso cotidiano, ao que somos de verdade.

É justamente nessa esquina entre o real e o idealizado que vicejam as paredes de papelão e latas, que se misturam os códigos da norma culta e da fala do povo, que se entrelaçam o “ê má”, o “tu é doido”, com a leitura acadêmica que fazemos dessa babel, um enigma que não conseguimos decifrar.

As “lan-houses” pontificam incluindo, digitalmente, os que compram mp-3 e os carregam com o forró que nos poupam de ouvir, o que não acontece com o “som de carro”, proibido em alguns bares.

A pirataria desconcerta as investidas policiais feitas à Feira dos Pássaros, às calçadas do centro e onde quer que esteja um vendedor que inclusive faz um “gato” da rede de distribuição pública de energia para melhor vender seu produto.

O que é mais pirata: a duplicação indevida (?) dos cds e dvds (assim se fez o sucesso de “Tropa de Elite”) ou o preço extorsivo do que é vendido legalmente?

E o que acontece quando nos recusamos a ver o que o espelho, impertinente, nos mostra? Fortaleza...

Centro/Periferia

A periferia pode estar no centro do centro. Para que algo mais periférico do que o chamado colunismo social?

Para que maior caricatura que mulheres enchapeladas, crianças fantasiadas de personagens da mitologia nos “buffets” infantis, casamentos temáticos (Romeu e Julieta), jovens garanhões (mas não tanto), recepções com um quê de Versailles?

A indigência de nossos novos-ricos joga para a periferia o que parece ser centro.

Por outro lado, a dignidade e a coerência dos movimentos sociais (bairros e favelas, jovens, sindicatos, sem-teto) levam para o meio da cena questões que não nos interessa enfocar.

Essa tensão é importante para uma compreensão mais fina de nossa complexidade social.

A cidade inchou. As relações sociais se tornaram mais complexas. A violência não é causa, nem efeito: é uma forma extrema do processamento dos paradoxos impostos pelas elites. O mercado se diversificou e se sofisticou. Tenta-se subverter a segmentação.

E onde ficam barbeiros, ourives, alfaiates, fotógrafos ambulantes nesse contexto?

Não se surpreendam se, em breve, os barbeiros de navalha estiverem fazendo performances nos salões de “haute-coiffure”. Os ourives podem ser chamados para armarem suas tendinhas nas joalherias de grifes dos hotéis de luxo, na linha do típico, da mesma forma com que bandas cabaçais tocam nos teatros com orquestras sinfônicas, fazendo a festa de políticas culturais assimétricas e elitistas, traçadas ao capricho dos gestores de plantão.

Da mesma forma que o “fast-food” pode incorporar o “cai-duro”, o forró dialoga com o axé, a tapioca ganha recheio de catupiry ou cobertura de chocolate “fondant”, a paçoca é feita no liquidificador e o centro da cidade continua no mesmo local.

Nossa relação com a memória é tensa. Negamos a tradição, mas não adianta negar ou rejeitar as práticas culturais mais ancestrais, o que faz sentido (ainda) para a comunidade: tudo volta, como as ondas do mar em seu eterno refluxo.

E assim caminha a Humanidade. E assim vamos levando tudo isso, rindo da própria desgraça, legitimando o que não merece e levando a sério o que deveria ser objeto de escárnio.

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=518530. Acesso 09 mar. 2008

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