terça-feira, 24 de agosto de 2010

Bestializados

Em novembro de 2008, por ocasião das comemorações da Proclamação da República, os alunos do curso de História monitoraram uma exposição criada por eles sob a coordenação da Profa. Lucirene Caragnato sobre a República Velha. Turma criativa, inquieta, produziu textos a partir de diferentes linguagens (sons, fotos, palavras, notícias de jornal...). O resultado foi a inquietação que sente o visitante quando sai da exposição pensando como tudo o que aconteceu na República Velha é tão atual.

Para representar esta turma, convidei nosso sempre brilhante colaborador, Marcel Alves Martins, para publicar o texto que redigiu e que está logo à entrada da exposição. Com isso, quero parabenizar a turma e a professora e trazer aos leitores deste blog um pouco das questões levantadas pelo trabalhos dos queridos e queridas do curso.

E nós, continuamos “bestializados”?
Por Marcel Alves Martins

“Glória à Pátria! Honra aos heroes do dia 15 de Novembro de 1889”. Eis as manchetes do dia seguinte à queda da Monarquia. Que heróis? Uma ala militar, que apressa a derrocada da Monarquia, já decadente, com um “desfile” ao qual o povo assistia bestializado, mostrando qual era a posição do mesmo no ato da Proclamação da República.

Constituída a República, tudo resolvido, afinal ela trará todas as soluções para os problemas encontrados no Antigo Regime com a “Ordem” e o “Progresso”. Mas que República? Qual o projeto de país pretendido por aqueles que fizeram a proclamação? Não sei. Mas o certo é que a república dos militares é distinta da república da burguesia cafeeira de São Paulo, que por sua vez é diferente da república do restante da população.

Qual República temos hoje? Também não sei, até parece que continuamos a assistir “àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava (e o que significa)”. Ao que tudo indica, e todos falam, esta cena continua a repetir-se sem que haja qualquer tipo de reação e/ou reivindicação, na medida em que insistimos em não participar da construção histórica de nosso país.

Será? O fato é que no ato da Proclamação o povo não teve participação, mas quem disse que, na construção daquilo que chamamos República, esse povo não foi agente desta história? Seria uma inverdade afirmar o contrário!

Ainda que alheia à proclamação da República, o que foi feito pelos militares, esta população foi de fundamental importância para os fatos seguintes. Quase sempre apresentada como massa homogênea e disforme, como povo, sem identidade e dignidade, os brasileiros estiveram muito longe disto. São gente, são pessoas, que vão à luta, mesmo no anonimato, para construir um país, para construir-se como gente, buscando dignidade.

Seja num Belo Monte com bons conselhos contra a República opressora ou na Contestação do avanço do capital estrangeiro opressor, seja na longínqua Juazeiro com os fiéis de meu “padinho” ou nas grandes cidades, por meio das lutas operárias por melhores condições de trabalho e salários dignos; seja com João Cândido contra a chibata ou com os cariocas contra a vacina.... São homens, mulheres, imigrantes, no campo ou na cidade, com religiosidade ou sem, que buscam uma Res – pública, uma coisa que seja de todos e para todos; que ela dê dignidade, preserve os direitos, puna as injustiças e preze pelo bem de todos.

Pergunto-me se hoje também não é assim. Nas “Marias” e “Josés” que saem para a labuta, na busca de melhores condições de vida, na defesa dos que são excluídos, nas reivindicações e nas indignações com a situação que está posta, mas que não é eterna. A luta é a mesma, buscamos construir uma República que seja de fato de todos, lutamos contra os abusos no anonimato, à surdina, mas nunca mórbidos, atônitos e surpresos.

Tanto lá quanto aqui lutamos, participamos, buscamos ser agentes da história, na construção de um país, ou pelo menos na organização de um projeto de país. As situações mudaram, mas a luta continua viva e a resistência parece correr nas veias. Mesmo sendo apresentados como massa, como povão, nós estamos aí, buscando dignidade, identidade; homens, mulheres, imigrantes... o processo ainda não parou!

Cabe agora uma pergunta:

E você, continua bestializado?!

Nenhum comentário:

Postar um comentário