AS MULHERES BURGUESAS E OPERARIAS NA OBRA GERMINAL
REPRESENTAÇÕES DAS DIFERENÇAS SOCIAIS.
Simone Ribeiro de Sousa
Resumo: o artigo propõe um estudo, da obra literária naturalista, Germinal (1881), de Émile Zola (1840-1902). Uma das principais obras do escritor, que mostra a realidade dos trabalhadores de uma mina de carvão, no interior da França. Visando entender, o papel da mulher na sociedade francesa do século XIX, através, das personagens femininas do livro. Mostrando o cotidiano das mulheres burguesas, com suas abonanças e ociosidade, representada no livro pela família Gregoire, donos da mina de carvão Voreux, e das mulheres operárias, na sua extrema pobreza e exploração através da família Maheu, na qual o sustento esta no trabalho na voreux. As diferenças sociais gritantes, que geram revoltas e repressões, e concluindo com a mulher minimizada pela sociedade, excluída das principais decisões inclusive da sua própria vida.
Palavra chave: Mulher; Sociedade; Diferenças.
Emile Èdouard Charles Antoine Zola, nasceu em Paris (França), em 2 de abril 1840, e morreu na mesma cidade, em 28 de setembro 1902. Foi o criador do gênero de romance naturalista, influenciando autores muito importantes da literatura em língua portuguesa, como o português Eça de Queirós e o brasileiro Aluísio de Azevedo. Para compor Germinal (1881), trabalhou durante dois meses como mineiro de extração de carvão, Sentiu as dificuldades do trabalho árduo e extenuante das minas, o calor, as moradias insalubres, as doenças e as greves conflitos durante todo o período.
Vivendo nas décadas finais do século XIX, em que a fé no progresso e o culto à ciência imperavam nos círculos intelectuais em nível praticamente mundial, o estilo de Zola decorre a de uma fusão do romance realista de Balzac, Stendhal e Flaubert, baseados na crítica de costumes sociais, com autores da biologia e da medicina, como Darwin e Claude Bernard. Da fusão do realismo com a biologia, Zola criou a escola naturalista, em que a análise social, crítica, do comportamento de seus personagens busca fundamentos no conhecimento científico da biologia de sua época. Assim, as características mais marcantes de sua obra, presentes também nos demais autores naturalistas, como o zoomorfismo, a visão do homem como animal, totalmente guiado pelos instintos, a ação humana influenciada por questões patológicas, e o determinismo pelo meio, sendo o homem um animal como todos os outros, vive em busca de se adaptar ao meio, portanto, o meio é um fator determinante ao comportamento humano, é mais forte que qualquer ação individual.
O livro Germinal se inicia com a chegada de um novo operário Etienne, que esta desempregado, e procura emprego na companhia de mineração, ele se depara com o velho "Boa Morte", apelido dado ao velho Vincent Maheu, por ter sobrevivido a Três acidentes na mina. Este senhor está com 58 anos, sendo que trabalha na mina desde seus oito anos. "Boa Morte", tosse muito, tendo sua saúde totalmente debilitada. Toda sua família trabalha nas minas de carvão, sendo uma "tradição" da família Maheu: seu avô começou com quinze anos.
Etienne se surpreende com o processo de produção, com as precariedades das condições de trabalho, miséria e exploração. Maheu, um dos trabalhadores mais antigo e respeitado, consegue vaga para ele, uma vez que uma operária havia falecido Aqui, todos os membros das famílias trabalham das crianças aos idosos, sendo que o número de salários por pessoa garante o sustento de toda família. Quando alguém morre ou deixa a família é necessário substituí-la imediatamente, para não baixar a renda familiar. Na família só os menores não trabalham (Lénore, 6anos; Henri, 4anos, Alzire, 9anos, por ser enferma) e sua esposa, a qual fica em casa cuidando de Estelle, três meses. Os filhos maiores todos descem nas minas: Catherine de 15 anos, Jealin de 14 anos, e Zacharie, de 21 anos. Eles acordam às 4 horas da manhã, cumprem jornada pesada de trabalho, e mesmo assim, a renda não é suficiente devido aos baixos salários. Essa era a triste realidade da família, neste trecho Zola ilustra o desespero, na esposa de Maheu:
E a mulher de Maheu continuou a lamentar-se, cabeça imóvel, fechando os olhos de vez em quando, à triste claridade da vela. Falou do guarda-comida vazio, das crianças que pediam pão, do café que faltava, da água que dava cólica e dos longos dias passados a enganar a fome com folhas de couve cozidas. (...). Novo silêncio, Maheu estava pronto; ficou imóvel um momento para, a seguir, encerrar a conversa com sua voz profunda: - Que queres? Não há outro jeito, arranja a sopa como puderes. Melhor é ir trabalhar do que ficar aqui conversando. - Claro - respondeu a mulher. - Apaga a vela, não quero ver a cor dos meus pensamentos (ZOLA, 1979, P.25-26).
A Voreux faz parte, das treze minas que ficavam ao redor da região de Monstou. Aqui os operários não sabiam quem eram os donos, porém sabiam que o Sr. Hennebeau era o diretor geral da Voreux. Já o Sr. Grégoire era acionista e herdara da seu bisavô a mina Piolaine, sendo que seu primo, o Sr. Deneulin era o diretor desta. Estes três senhores estavam preocupados com as notícias da economia e da política, as quais estavam afetando seus negócios e com a provável greve que se anunciara. Preocupavam-se porque pertenciam à burguesia detentora de poder e riqueza, os contrastes são revoltantes:
Naquela manhã, os Grégoire levantaram-se às oito horas. De ordinário, só saíam da cama uma hora mais tarde, dormindo muito e com paixão, mas a tempestade os enervara. E enquanto o marido fora logo ver se o vento não fizera estragos, a Sta.Grégoire descera a cozinha em chinelos e roupão de flanela. (...) a cozinha era muito grande e percebia-se a importância que davam a essa peça pelo seu extremo asseio e pelo arsenal de caçarolas, utensílios e potes que a enchiam; cheirava a comidas boas; as provisões chegavam a não caber nas prateleiras e armários. (ZOLA, 1979, P.81-82).
Na sua propriedade os Grégoire moravam em um casarão, com criadagem, cocheiro jardineiro “e como o serviço era patriarcal, de uma pacatez familiar, esse pequeno mundo vivia em harmonia” (ZOLA, 1979, P.82). Tinham uma única filha Cècile de 18 anos, a qual devotava muito carinho. “Ambos se curvaram para contemplar com adoração àquela filha tanto tempo desejada, vinda tardiamente quando não esperavam mais” (ZOLA, 1979, P, 83).
Essa situação de falta de segurança no trabalho, extrema pobreza dos mineiros gera uma greve. “E os estômagos gritavam, e esse sofrimento vinha a aumentar a raiva contra os traidores. - Às minas! Nada de trabalho! Pão!" (ZOLA, 1979, p.339). Na obra, o autor explicita que as mulheres para conseguirem comida, tinham que manter relações com o proprietário do armazém. E quando a greve se inicia, elas invadem o armazém para saqueá-lo. O dono se esconde num telhado, no entanto cai e com tamanha fúria e revolta elas, no ato de barbárie, arrancam-lhe o membro. A insatisfação pelas condições e a penúria são tão extremas que impulsionam os grevistas a inlucidez e a revolta. Em que "as mulheres é que, sobretudo, se exaltavam; a mulher do Maheu fora de si, com a vertigem da fome (...)" (ZOLA, 1979, p. 251) é a que mais impressiona, pela sua garra e determinação, em querer mudar àquela situação subumana e degradante.
As greves, mais do que por maiores salários ou jornadas de trabalhos menores, eram greves pela forma de vida e de trabalho que os operários estavam vendo acabar. A revolução industrial mudou a vida das mulheres agora transformadas em proletárias Para Michelle embora cada vez mais mulheres tomassem lugares nas fabricas cada sexo continuava a ter suas funções, seus papeis, quase que predeterminados “ao homem, as madeiras e os metais. A mulher, a família e os tecidos” PERROT (1988, p.178).
Em toda esta trajetória, Michele Perrot, mostra de forma clara, a dupla discriminação que a mulher operária e esposa sofrem. Se não bastasse perder o emprego para as novas máquinas, a mulher vê o seu marido também perder o emprego e desta forma ela sofre duplamente, pois perde como operária e como esposa/mãe. ”Quando as mulheres entraram em casa com as mãos vazias, os homens as olharam em silêncio e baixaram a cabeça. Era o fim... o dia terminaria sem uma colherada de sopa”. (ZOLA, 1979, p.266)
Não é só a mulher das classes menos favorecidas, que sofrem esta exclusão da vida pública, a mulher burguesa também sai de cena aos poucos. A fábrica sai da casa do patrão, e vai para o subúrbio ou para o interior, a mulher burguesa vai perdendo a liberdade, sendo aprisionada em casa. ”A sta. Hennebeau já estava ficando cansada; a princípio sentira-se bem naquele papel de mostrar bichos, distraída por um instante no tédio do seu exílio”.(ZOLA,1979, p.113). E com normas de comportamento cada vez mais rígidas:
Ela cobre seu corpo segundo um código estrito que a cinge, espartilha-a, vela-a, enluva-a dos pés a cabeça. E é longa a lista de lugares onde uma mulher ‘honesta’ não poderia se mostrar sem se desagradar. A suspeita persegue-a em seus movimentos; a vizinhança, é espiã da sua reputação, até seus criados a espreitam; ela é escrava mesmo em sua casa (PERROT, 1988, p.200).
Sobra-lhe somente às obras de caridade como forma de atividade pública: “Os Grégoire encarregavam Cécile da distribuição de suas esmolas. Com isso pensavam estar inculcando na filha uma bela educação.”. (ZOLA, 1979, p.98)
Até mesmo nos sindicatos, a presença das mulheres, muito comum no início de sua história, é cada vez mais vista pior. O movimento sindical vê no movimento feminino algo desordenado, e que não incorpora a luta de classe, acha que a presença das mulheres, nas greves é perigosa, porque desorganiza o movimento que perde sua força. O que se pretende aqui é exemplificar, não só a mulher dona-de-casa, ou a mulher operária ou ainda a mulher mãe, mas a mulher em todas as suas atividades.
E sua eterna luta, para ter seus direitos de igualdade, garantidos e respeitados.
Referências Bibliográficas:
FARACO. C.E. Língua e literatura. 6. ed. São Paulo: ática, 1986.
PERROT, Michelle Os excluídos da historia: operários, mulheres e prisioneiros. Tradução Denise Bottmann. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 332 p.
ZOLA, Émile. Germinal. Tradução Francisco Bittencourt. São Paulo: Abril Cultura, 1979. 535 p
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