Cristiano Alexandria de Oliveira é uma das pessoas mais brilhantes que conheço. Tive o privilégio de aprender muito com ele quando fui professora do curso de Letras. Ser professor tem destes encantos...muitas vezes aprendemos mais do que ensinamos. Com Cristiano é assim. Ousaria dizer que sua alma é renascentista. Cristiano é intelectual arguto, poeta minucioso, artista plástico preocupado com as formas perfeitas. Utiliza as palavras com a mesma precisão que o lápis e o pincel. E com esta genialidade, ainda mantém a humildade do garoto que veio do interior da Bahia e que cursou escolas públicas a vida toda. É gênio.
A poesia que segue é claro exemplo de que só sensibilidade não faz um poeta. Alexandria utiliza-se da precisão matemática na construção dos versos e de muita leitura para alcançar a riqueza das imagens que compõe.
Permita-se perder-se nas esferas, de Alexandria.
As esferas
Cristiano Alexandria de Oliveira
Ouvi os clamores destes céus soberanos
Inspirai a aragem de passado, vede a nuvem:
É a chaga que nos cega a alma estarrecida
Antevendo os passos daquele que preside.
As campinas olímpicas já murmuravam
E nas catacumbas do Nilo logo ouviam:
- Recebei esta aliança, terreais, e bendizei
Dela, que é convosco tal qual é conosco.
E Zeus dá ao Homem o poder de uma apótema.
Descerrando o céu, eis que vem ao solo árido
E florescendo rubro no Vaza Barris
Antônio, fruto da suprema transgressão.
A humildade, que poucos no mundo tem guiado,
Foi, na existência dele, a guia e a guilhotina.
Pois como não seguir aos amores de Vênus
(Para depois ter, na lâmina da discórdia,
O hálito fero de Mefisto já cioso)?
Com o pregar da fé cega que tanto tinha,
Na vida errante, mas vivida, que passava
A levar o Santo Nome aos nortistas.
Fez que a fera – do forte braço clérigo
Vendo seu poder ameaçado, blasfemasse.
Ó cobiçosos tiranos, se vós soubésseis
O futuro que de tal ato foi gerado
Tivessem visto, na multidão que o seguia,
A desesperança nos olhares descrentes,
Nos diversos ângulos somados à vista,
Que era paz o que Antônio dizia com viveza...
Que fez em luz o que na guerra não fizeram
A foice e o martelo, lupanar da verdade.
Tal qual o ruir da Babilônia antiga, e Roma
E o finar-se de Egito e Constantinopla
Vem uma vez mais a imperiosa inveja etérea
E o medo – e tudo o que a sanidade suprime.
Bradava o louro deus nórdico dos trovões:
- Tomarás dele o perímetro de seu trono!
Olhai a águia voando, que é dos Céus vinda
E observai com que pesar disse tal agouro:
- Ai, ai, ai, vinde, que já é tempo, vinde e pisai!
Prudente enviou seiscentos homens, crido muito
Viu que muitas vidas custou seu desengano
Vieram outros mil com mais duzentos soldados
Com este número a derrota foi dobrada:
Mil e oitocentas histórias diferentes findas
Para que esta elegia pudesse ser cantada.
A forte rajada trouxe areia, neve e aço.
Milhares de corações inflamaram de ódio
(Um sentimento que não fora neles criado)
Assolam Canudos, que era Roma em poesia,
E destruído pela prosa da Esfinges.
Mas, ó deuses, cegos pelo triunfo falho
Que não se vaidece mais o ato que a pessoa,
Teríeis visto que Antônio mais é vivo
Agora, que vossas fraquezas tem-no morto.
Pois há consigo o Deus dos tempos infinitos
Que tudo sabe por completo e para sempre.
Não notastes que Antônio, encurralado, não fugira?
Inútil saber venatório, porém cego.
Deus fê-lo luz, e luz brilhou, pois era um raio
E a rachar a terra e os açudes nordestinos
Mais vence morto do que quando tinha vida
Nenhum comentário:
Postar um comentário