terça-feira, 24 de agosto de 2010

Patrimônio imaterial

Em 2005, tive o privilégio de conhecer uma das turmas mais criativas e revolucionárias para a qual já lecionei. Alunos e alunas inquietos, criativos, competentes para planejar e por em prática o que acreditavam como proposta de educação e de vida. Foi nesta turma que conheci Thiago Fijos, "menino" que comparecia às aulas de bermuda e skate e que muitas e muitas vezes superou todas as expectativas (grandiosas) que eu tinha em relação a seu grupo e a ele. Não dá pra dissociar Thiago de sua vida como capoerista. E um dos trabalhos que pedi que fizesse, nas aulas de Museologia e Arquivologia sobre Patrimônio, ele escreveu uma belíssima monografia, de pesquisa ímpar sobre o tema. Até hoje tento convencê-lo a transformar o trabalho num mestrado. Hoje Thiago Fijos é licenciado em História, leciona na rede pública estadual de São Paulo e é estudante de Ciências Sociais. Há um ano, ele e sua turma revolucionaram a universidade em que estudaram com uma Semana da Consciência negra inesquecível, que contou com grupo de Maracatu, palestras sobre Candomblé e, como não poderia deixar de ser, um grupo de capoeira do qual Thiago faz parte.


Muito generoso, Thiago redigiu o texto que segue para publicá-lo neste blog. É só uma amostra da rica pesquisa que ele empreende.

Capoeira Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro
por: Thiago Fijos de Souza


Meio milênio depois de sua avassaladora força de resistência, ao sistema escravista, a capoeira finalmente é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial[1] Brasileiro.

Batizada posteriormente as suas efetivas atividades, em meados do século XVIII, a capoeira teria se materializado aqui, nas terras do além mar, no início do século XVI com a chegado dos primeiros africanos, os quais não dispunham de armas alguma para enfrentar o covarde empreendimento europeu, a escravização do “outro”, nos quais os povos autóctones do novo mundo, além dos africanos, não escaparam das atrocidades impostas pela ocupação e exploração européia.

É dentro deste contexto que o corpo do oprimido vai tornar-se arma, pois este é seu único recurso imediato para enfrentar o poderio bélico europeu. A prática da luta corporal negra nunca foi tolerada durante todo o período escravista, tendo que se camuflar de várias formas para continuar existindo. As concepções periculosas da luta adentram o período da República Velha (1889-1930), nas quais a população excluída dos postos de trabalho, após a abolição da escravidão (1888), continuou utilizando a luta, sua astúcia e malandragem para subsistir dentro da complexa política instituída no Brasil depois da Proclamação da República (1889), em que o negro, apesar de liberto, não foi inserido como cidadão e continuou fora dos planos da elite nacional. Isso veio a provocar cicatrizes até nossos dias.

Ainda no século XIX a capoeira ganha oficialmente o título de crime com o vigor do código penal de 1890:

“Fazer nas ruas e praças publicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação capoeiragem acarreta pena de prisão celular de dois a seis meses; sendo circunstância agravante pertencer a alguma malta ou bando; aos chefes ou cabeças seria imposta pena em dobro ; os reincidentes podem ter uma pena de ate três anos; se o capoeira for estrangeiro, deveria ser deportado após cumprir pena.” (CAPOEIRA,2001,p.43).

Talvez este tenha sido um dos períodos mais contraditórios da história da capoeira, pois apesar de perseguida e criminalizada ela também foi muito utilizada por partidos políticos e pela elite brasileira:

“Capoeiras e capangas eram tradicionalmente usados também por políticos e poderosos em geral como instrumento de justiça privada’’(...) “Muitos capoeiras integram a Guarda Negra que dispersava comícios republicanos. A própria policia fazia uso deles como agentes provocadores ou informantes” (CARVALHO, 2004,p.155)

Esta conotação subversiva da capoeira iria se alterar após o golpe de Getulio Vargas (1930), que vai promover a capoeira como um esporte nacional, através da metodização da capoeira de Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado, 1900-1974), na qual passa a chamar-se Luta Regional Baiana, e por incrível que pareça, no Estado Novo (1937-1945), a capoeira passa a ser ensinada nas forças armadas brasileira. Mas a capoeira primitiva não deixa de existir, e ainda carregando o estigma marginal, a Capoeira Angola recusa os métodos propostos por Bimba e continua a ser praticada livremente, no sentido do seu desenvolvimento intuitivo e natural, tendo a frente Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1899-1981). Estes dois nomes citados são dois dos grandes homens que marcam a história da capoeira, muitos mestres contribuíram para a construção da luta e do titulo por ela atribuído no dia 15 de Julho deste ano, porem se nos atrevêssemos a citar mais nomes nunca contemplaríamos todos os construtores dessa herança cultural, assim como o breve histórico da própria capoeira descrito nestas poucas palavras, no mais todo brasileiro tem um pouco de capoeira, a miscigenação nos proporciona esta virtude e a riqueza do ritmo, do molejo, da criatividade, da estética, da coragem e da brasilidade do povo mais heterogêneo do mundo.

Portanto a arte da capoeira supera o preconceito após 500 anos de existência, onde participou ativamente da história do pais, nas rebeliões populares, nos redutos quilombolas, na luta por condições de sobrevivência, nas quais a luta libertadora, consciente e educadora, hoje , com merecimento a conquista do titulo de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

BIBLIOGRAFIA:

BIMBA,Mestre. Curso de Capoeira Regional. RC Discos/Fitas Salvador. (?)

CAPOEIRA, Nestor. Os Fundamentos da Malicia. 7.ed.. Rio de Janeiro: Record, 2001.

CARVALHO, José Murilo de. Os Bestilizados: 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

GARCIA, Victor Alvim Itahim. Historias e Bravuras de Besouro : O Valente Capoeira . Rio de Janeiro: Abada Edições, 2006.

PINSKY, Jaime. A Escravidão no Brasil. 12.ed. São Paulo: Contexto, 1993.

PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução Política do Brasil. 16.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: Ensaio Sócio-etnografico. Bahia: Itapuã,1968.

SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Como proteger os bens imateriais? Disponível em: http://www.geocities.com/lagopaiva/comoprot.htm. Publicado em 27 ago. 2000

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[1] O patrimônio imaterial é subjetivo e intangível,”1. dos saberes (conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades); 2. das celebrações (rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social); 3. das formas de expressão (manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas); 4. dos lugares (mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas).” (SOFFIATI NETTO) Os parâmetros citados são uma simplificação do artigo 1 do Decreto 3551. de 04 de agosto de 2000, onde se redefinem os conceitos que definem o Patrimônio Imaterial Brasileiro.

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