terça-feira, 24 de agosto de 2010

Texto e contexto

Rodrigo Tavares Freitas é formado em Letras. Conheci este menino de olhos vivos e sorriso contagiante no primeiro semestre de seu curso.

Sempre teve alegria em aprender. Já no 4º. Semestre tinha idéias para desenvolver no Trabalho de Conclusão de Curso. E com a orientação do Prof. Flavio Botton, realizou trabalho primoroso.

Aqui, Rodrigo nos oferece em forma de artigo, uma parte deste trabalho. Alguns itens da bibliografia como Celso Luft, Vigotsky e Pedro Demo são de leitura obrigatória para todos os educadores.

O pluralismo de idéias e a interdisciplinaridade na sala de aula

Ao ser solicitado ao aluno do ensino médio o desenvolvimento de uma redação ou o levantamento de uma análise qualquer que envolvam as disciplinas correntes ou um assunto específico, encontramos fortes obstáculos que demonstram total despreparo do aluno para a sua elaboração. Estes obstáculos denotam problemas em vários aspectos cognitivos que estão ligados à vida escolar do aluno, tais como dificuldades em ler, construir orações lógicas, compreender textos e raciocinar com clareza. Este cenário está estabelecido por todo sistema de ensino do país, que não atinge às perspectivas dos países mais avançados cientificamente.

Os professores responsáveis pelo ensino da redação também apresentam despreparo no processo ensino-aprendizagem no que condiz a um bom desempenho na elaboração da redação. Estes, por sua vez, perdem-se em meio a filosofias de ensino que se diferenciam por suas metodologias: a tradicional (que visa o ensino num processo unilateral, em que o professor é o detentor do conhecimento e o aluno o receptor) e a sócio-interacionista, ou reflexiva (que visa o ensino num processo bilateral, em que o professor é o intermediário na busca do conhecimento pelo aluno). Por conta deste desencontro metodológico, as estratégias utilizadas na rede pública de ensino, para o desenvolvimento da redação pelo aluno, tem se demonstradas incoerentes com a dinâmica de ensino sugerida pelos Parâmetros Curriculares Nacional de Língua Portuguesa.

Para que haja a liberdade da expressão de fato como método educacional, o professor deverá abrir debates com seus alunos para que haja divulgação do pensamento por parte dos estudantes. Se o professor pretende abordar a arte, por exemplo, poderá, em meio a debates, trabalhar as artes que os alunos estão habituados, como grafite ou música. Assim, o conhecimento artístico do aluno poderá mesclar-se ao que o professor pretende transmitir, formando assim, uma fusão de conhecimentos ou uma análise paralela comparativa sobre as artes envolvidas no debate. Desta forma, o aluno estará dialogando com o professor, expressando suas idéias e opiniões acerca do assunto por meio da linguagem que o aluno está habituado. No atual Ensino Médio há uma confusão metodológica quanto à liberdade de expressão e pesquisa. As correntes interacionistas e tradicionais de pensamento são observadas em conjunto, evitando uma clareza de idéias. Não é possível que estas duas correntes caminhem juntas para o alcance do conhecimento, já que tratam de itens severamente opostos.

Através da interdisciplinaridade entre opiniões a interação torna-se mais viável devido à troca de informações entre os integrantes da turma. O contexto social em que está estabelecida a sala de aula pode ser usado como ferramenta de trabalho pelo professor para a construção de idéias e formação intelectual. Se não for considerado o contexto social em que a sala de aula está estabelecida assim como a aplicação de conteúdos aproveitando esse contexto, o professor não formará alunos autônomos capazes de pensar por si próprios, mas meros reprodutores de seu conhecimento capazes de decorar regras e assuntos e não entendê-las.

Saber interdisciplinar é saber comunicar e trabalhar com as diferenças procurando uma resposta comum a todos. Sendo assim, um professor de História, por exemplo, pode interdisciplinar com um professor de Língua Portuguesa no que diz respeito ao estudo da Literatura, já que entendemos que não é possível analisar uma escola literária se não há um estudo do contexto histórico que está por trás daquela escola. Com esta mesclagem, o estudo se torna mais prático e fácil porque não há monotonia em sua aplicação, mas interatividade e ponderação de outros pontos de vista e outros ângulos.

Em contrapartida ao que apregoa o tradicionalismo educacional, a LDB afirma que a educação não se limita apenas ao centro escolar, mas ao meio social geral do aluno (vida familiar, convivência humana etc.), ou seja, a escola é um centro de referência educacional adicionado ao processo de formação do aluno, já que este possui outras referências além da escola. A escola deve contribuir com a mesclagem dos valores externos a ela como, por exemplo, cidadania, liberdade, democracia e igualdade.

Para que entendamos este princípio da LDB, será necessário considerarmos que os ambientes sociais do aluno também auxiliam na sua educação e desenvolvimento intelectual. Se formos analisar quais são estes ambientes, concluiremos que são inúmeros, podendo citá-los alguns deles: a família, a igreja, o clube de esportes, a vizinhança, as festas folclóricas etc. Estes contextos sociais certamente contribuem com o desenvolvimento sócio-educacional do aluno já que por trás deles há princípios educativos e políticos. Por exemplo: a igreja é o centro onde os princípios educativos relacionam-se à moral e à religiosidade e a família é o centro onde os princípios educativos são amplos, podendo relacionar-se à moral, ética, religiosidade, política etc.

Podemos concluir que a LDB e o PCN sugerem que o ensino seja efetivado por meio de um processo reflexivo e não tradicional ao que se pensa em algumas entidades educacionais. Já que o ensino tradicional demonstrou-se instável perante as mudanças sociais decorrentes no país ao longo dos anos 70 a 90.

O objetivo da aplicação dos mecanismos sócio-interacionistas é o de tornar o aluno autônomo e capaz de pensar por si só e em grupo, além de seguro e competente para expor suas idéias de forma organizada e compreensível. Sabemos que o intuito do desenvolvimento de uma metodologia sócio-interacionista numa classe do ensino médio não é o de apenas formar seres-humanos capazes de redigir e analisar contextualizações com eficácia, mas o de desenvolver a capacidade da análise social, política e econômica. A capacidade de argumentar, processar informações e resolver problemas cotidianos também são objetivos desta metodologia, pois este método torna o aluno um ser pensante.

O primeiro princípio que o professor deve ter em mente é o de amigo e companheiro de seus alunos, pois já devem ter sido “abandonados” por professores anteriores. O aluno deve ser visto como construtor do conhecimento e o professor o intermediário deste mecanismo. Sua opinião e expressividade devem ser colocadas em evidência pelo educador e não ser subtraída para que a visão do educador se torne absoluta. A construção do conhecimento pelo aluno o torna pesquisador e ciente das diferentes formas de pensamento do mundo. É exatamente isso o que sugerem os Parâmetros Curriculares Nacional, que, infelizmente, não são observados, o que torna o aluno exatamente o oposto deste processo: um ser incapaz de pensar por si próprio e de construir.

Bibliografia

BORDENAVE, Juan E. Díaz. O que é Comunicação. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

BRAIT, Beth. Bakhtin, Dialogismo e Construção do Sentido. Campinas. Unicamp, 1997.

BURITY, J. A. Interdisciplinaridade, Discurso e Diálogo Científico. In: Anais Simpósio e Interdisciplinaridade em Questão. Campina Grande: Universidade Estadual da Paraíba., 1998.

DELGADO, Evaldo Inácio. Pilares do Interacionismo: Piaget, Vygotsky, Wallon e Ferrero. 3. ed. Rio de Janeiro: Erica. 2004.

DEMO, Pedro. Conhecimento Moderno: Sobre Ética e Intervenção do Conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1998.

____________. Pesquisa: Princípio Científico e Educativo. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2003.

DIJK, Van. Cognição, Discurso e Interação. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2003.

LUFT, Celso Pedro. Língua e liberdade. 8. ed. São Paulo: Ática, 2006.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO . Parâmetros Curriculares Nacionais. Língua Portuguesa,1998

VYGOTSKY, Liev Semionovitch. A Construção do Pensamento e da Linguagem. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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