Nesta manhã eu acordei com minhas idéias um pouco confusas. Lembrei-me que não precisaria trabalhar já que é o meu dia... o “dia dos professores”. Como quem não mais consegue se livrar da rotina levantei-me e parei para me observar no meu velho espelho, e naqueles pequenos momentos, deixei que minha mente me contasse tudo aquilo que penso sem medos e com pouco pudor (que habita em idéias pouco mastigadas). Aproveitei cada segundo, já que tenho poucas oportunidades de realizar tal nobre ação... minha mente tem tido pouca voz nesses dias de árduo trabalho.
Como em um turbilhão de sensações me senti um hipócrita. Como podia estar em casa, sonolento, em dia tão importante? Por que não estava nas ruas reivindicando uma condição de vida mais digna? Entretanto, o estar em casa me causou enorme alívio... tenho andado estressado e preocupado com a minha saúde. Devo admitir que o trabalho tem me consumido e as correções de trabalhos e a preparação de aulas tem me tirado os momentos de folga. Mas enfim, para sobreviver em minha profissão devo me sujeitar a essas enormes jornadas.
Logo passei a imaginar a contradição que isto significa. Enquanto devo trabalhar de forma estafante, muitos de meus companheiros têm que se desdobrar para lecionar em diversas escolas, quando ainda possuem campo para trabalhar! Seria tão difícil se criar jornadas mais lógicas e justas com remunerações mais dignas? Não pude deixar de esboçar um discreto sorriso ao meu reflexo... não sou tão culpado assim de tantos problemas educacionais, como afirma minha nobre secretária! Deixei de duvidar que estavam transferindo para mim e meus companheiros uma ingerência que transcende os limites das salas de aula.
Inúmeras possíveis soluções pairaram em minha mente em frações de segundo, mas todas elas se resumiam a uma coisa: “vontade política”. De fato as relações políticas têm seus efeitos diretos em nossa vida cotidiana, mas em nosso caso, são a essência de nosso labor. Nós, professores, não vamos para a sala de aula despidos de ideologias, ideais e valores. Não brincamos de escolinha, mas queremos formar cidadãos! Ora, estão tentando nos fazer esquecer disso!
O discurso furado da educação neoliberal que nos trata somente como funcionários, aplicadores de cartilhas e propostas são a maior prova de a quem nossos dirigentes estão servindo: o grande capital que se apropria da mão de obra barata que formamos e de nosso próprio esforço, no já manjado discurso do “se não está satisfeito, que procure outra profissão!” Estufei meu peito e não contive que meus lábios dissessem ao ar, um forte e convicto “não!”
Irriguei aquele momento com minhas lembranças de quando era eu o aluno. Sentado, calado, admirando a sabedoria dos meus professores. Ah... aquela professora que me mostrou Marx, Da Vinci, Dali, Ghandi! Como sonhei em um dia poder mudar a vida de alguém da mesma forma! Como fiquei orgulhoso em me sentar pela primeira vez no banco da Universidade, sabendo que em breve realizaria meu sonho... o primeiro dia de trabalho? Inesquecível! Tremi, mas não me esqueço dos rostos de cada aluno voltados para mim, o grande ator no palco da educação!
Como alguém pode agora me dizer que se não estou satisfeito que mude? Mudarei sim... a minha postura, as minhas aulas, a minha forma de ver o mundo!
Não consegui conter o avanço dos meus pensamentos. Havia algum tempo que não conseguia reorganizar meu mundo... percebo hoje que talvez seja esta a intenção daqueles que nos ditam regras e nos fazem auxiliares de sua burocracia interminável: limitar nosso campo de visão para que não vejamos que os problemas são mais estruturais que ocasionais.
Ah, meus alunos... se eu sofro, imagine eles! Não importa a sua idade, não passam de crianças, muitas oriundas de famílias desestruturadas, envoltas em uma realidade que o Estado não é capaz de solucionar. O exemplo e as oportunidades vêm daqueles que nem sempre dão bons exemplos. A luta pela sobrevivência faz com que muitas dessas crianças fiquem a mercê de situações que se refletem diretamente em nosso cotidiano. Devemos culpá-las? E que exemplo nós temos dado?
Por outro lado temos um Estado negligente, que em sua incompetência, transfere para as escolas problemas que competem e ele resolver. Senti-me orgulhoso em entender que na verdade eles têm medo. Medo é a palavra correta. Medo de que nossos alunos realmente aprendam e percebam que seu modelo de gestão está errado. Medo de assumir a sua culpa histórica na deteriorização da educação. Medo de não formar uma mão de obra submissa e dependente para compor as fileiras de seus industriais.
Mas percebi que o maior medo é de nós professores. Eles sabem bem que somos nós que podemos mudar tudo isso. Que através da aplicação de nossos conhecimentos e vivências (não digo de técnicas, mas de cidadania) podemos abalar esta poderosa estrutura, que esconde seus medos e incapacidades em um discurso liberalizante. Naqueles minutos eu percebi que temos mais poder que imaginamos... o poder de nos mobilizarmos e de ultrapassar a famosa educação bancária para ministrar valores, sentimentos (é, a educação envolve sentimentos!)... enfim, condições para uma vida digna aos nossos alunos.
Aquela sensação inicial de sair e reivindicar voltou a tomar conta de mim. Entendi que valia a pena trocar um dia de descanso por uma vida profissional mais tranqüila. Que as muitas palavras já nada resolverão, é preciso mais, é preciso ação!
Me senti orgulhoso novamente de ser professor. Ainda que seja difícil, não há nada melhor. Já vestido (com todo o meu arsenal ideológico) resolvi sair e dizer tudo aquilo que todos nós sabemos, mas que nos faltam oportunidades de falar. A verdade é que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Não importam os anos de magistério, mas sim o amor que nos despertou a educação e é esse amor que é capaz de superar qualquer descaso ou problema social... basta que acreditemos. Enquanto deixarmos os medrosos ditarem regras, as propostas audaciosas jamais emergirão.
Aqui estou e chamo a todos aqueles que também sabem de seu poder de mudança. Que sabem que é do seio de nosso trabalho que pode surgir a esperança.
Com orgulho digo, Parabéns professores! O futuro do mundo está em nossas mãos e façamos dele bom uso.
Gustavo Querodia Tarelow
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