Cristiano Alexandria Oliveira, mais do que somente um dos brilhantes participantes deste blog, é assíduo colaborador nos bastidores. Foi ele o primeiro a sugerir a criação de categorias para classificar e organizar os textos. Foi o primeiro também a pensar em "botar fogo" nas discussões, quando me forneceu, no final de 2007, o texto abaixo. A idéia que ele teve foi o de inquietar os leitores, fazê-los se posicionar frente ao conteúdo lido. E que assim seja!
Mais uma vez, Cris, agradecemos.
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Este pequeno texto é parte de um pequeno projeto que venho montando para analisar uma grande coisa: a Gramática. Mais uma vez a Gramática, esta virgem maiúscula e severa, tão devassa quanto intocada, mas sedutora aos que se deixam levar pelos seus mais rubros encantos.
A idéia de tratá-la tão poeticamente como uma musa vem bem a calhar ao tema da análise: a questão do gênero nos livros de escolares de Gramática, particularmente quanto ao caso do gênero feminino, sua participação, influência e importância.
Antes, é bom que eu deixe bem claro que Gramática não tem opinião própria, não tem preconceitos, não se dirige (pelo menos não por conta própria) a esta ou aquela classe social. A Gramática, como coisa da mente, fruto da linguagem, é pura, deusa elevada. Quem opina, preconceitua e dirige são os gramáticos. Oráculos, talvez, de posturas políticas, são eles que delineiam o corpo da Gramática que vai para os livros, mas a alma dela existe bem fixada em nossas mentes.
Como o texto serve de introdução – porque há muito mais por vir, analiso aqui apenas um livro: Novo Português Básico, para a sétima série, de Maria da Conceição Castro, publicado em 1990. Antes, um porquinho mais de porquês.
Este texto é assim porque a pesquisa está em processo embrionário e o objetivo dele não é ser frio nem aporrinhar o leitor. Deixemos as citações um pouco, filosofemos sem culpas e bibliografias. E o livro escolhido a ser analisado foi este porque o usuário dele deve estar agora com seus 30 ou 31 anos, se não houvesse bombado em nenhuma matéria anterior. É o adulto de agora, o usuário “competente” da língua.
Enfim, vamos. Para focar ainda mais a análise, analiso aqui somente os exemplos das explicações de conteúdo. O exemplo é muito importante na formação do conhecimento. É o que faz digerível a parte teórica, organiza o pensamento, dá forma prática e usual à matéria.
Em “Conhecendo melhor a nossa língua”, página 13, vemos uma pequena revisão de classes de palavras. Substantivos: sino, coelho, amor. Adjetivos: bonito, feliz, pequeno. Pronomes: ele, nosso, este. E por aí vão todas as classes de palavras. Perceba que, nos exemplos, não há nenhuma presença do gênero feminino. Nenhuma ocorrência sequer. Seria descuido de quem escreveu? Preconceito não poderia ser, pois quem a escreveu foi uma mulher. O que acontece?
Prossigamos. Na página 16, uma breve explicação sobre Frase, oração e período. Estas frases introduzem o assunto: “Fiquei um pouco admirado”; “Não saia!”; “Que calor!”; “Nas paredes, nenhum quadro”. Quatro frases. A primeira se refere, como vemos pelo adjetivo, ao gênero masculino. Pelas outras três, impossível definir. Logo abaixo, vem escrito: “A frase que contém um verbo é chamada de ORAÇÃO”. E seguem os exemplos: “a classe está irrequieta”; “Os alunos brincam no pátio”. O primeiro exemplo está no feminino coletivo. E, no segundo, o plural “alunos”, no masculino, dá a idéia de ser somente meninos ou de ser meninos e meninas que brincam.
Por que, nestes exemplos, dá-se tamanha preferência para o gênero masculino? Em exemplos que muito bem poderiam se referir ao gênero feminino, a autora preferiu frases cujo gênero é totalizante ou indefinido.
A página 17 segue com o assunto e consta com os seguintes exemplos: “cheguei atrasado”; “o dia está chuvoso, mas assim mesmo sairemos”; “ele se enganou”; “eles chegaram e saíram logo”.
A princípio, o papel do gênero feminino vem de forma muito específica, como na explicação dos pronomes retos e oblíquos ou em concordâncias nominais (que é regra, dá preferência ao masculino). Quando o assunto a ser tratado possui uma idéia mais generalizada, os primeiros exemplos vêm sempre com idéias de gênero masculino, seja no adjetivo ou no pronome. O gênero feminino é mais usado com coisas inanimadas, como classe, cadeira, noite e substantivos abstratos, como tristeza, alegria e fome. O masculino recebe a maioria dos pronomes (principalmente no plural, por dar a dupla noção de totalidade masculina, ou parte masculina, parte feminina), os substantivos animados, como nomes de pessoas (Pedro, João etc.) e animais (leão, pássaro etc.).
Há, por trás destas escolhas (porque são escolhas, à medida que há uma gama quase infinita de formação de diferentes exemplos para um mesmo tópico), uma forma inconsciente de ideologia? Se os exemplos fossem outros e houvesse um balanceamento no uso dos gêneros, haveria mudança de aproveitamento do aluno? E o professor, como se coloca (ou deve se colocar) diante do que tem em mãos?
Certamente há uma enorme conjuntura histórica por trás de tudo isto e não será possível fugir de averiguar a história da educação, desde os primórdios. Afinal, educação para mulheres é algo recente se considerarmos a educação desde Aristóteles até os nossos dias. Pode haver, nos livros de Gramática, um elo perdido, uma herança do que foram os estudos antigos, infinitamente mais masculinos do que são hoje?
Pode haver..? Quantos textos, caro leitor, terminam por aí com uma dúvida? Poucos. Mas não é mais do que posso deixar de lição. Nada encerra totalmente a verdade e, se a dúvida não for dada pelo próprio texto, busque você, leitor, a sua.
fala cisas mais interesamtes
ResponderExcluirai se fosse legal professora angelica voce ter um tempo livre é vim com hecer é so vc it na rodovia ria mais perto e peguar um onibos para patrocinio
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