terça-feira, 24 de agosto de 2010

As mulheres em Germinal

Simone Ribeiro de Sousa é graduanda em História. É uma daquelas alunas quietas, curiosas, que sempre surpreendem positivamente o professor. Foi pedido à sua turma que escolhesse uma obra entre o século XV e XVIII e escrevesse um artigo. Simone não surpreendeu apenas na apresentação, mas também no texto que escreveu e que graciosamente permitiu que fosse publicado no blog.

AS MULHERES BURGUESAS E OPERARIAS NA OBRA GERMINAL
REPRESENTAÇÕES DAS DIFERENÇAS SOCIAIS.
Simone Ribeiro de Sousa

Resumo: o artigo propõe um estudo, da obra literária naturalista, Germinal (1881), de Émile Zola (1840-1902). Uma das principais obras do escritor, que mostra a realidade dos trabalhadores de uma mina de carvão, no interior da França. Visando entender, o papel da mulher na sociedade francesa do século XIX, através, das personagens femininas do livro. Mostrando o cotidiano das mulheres burguesas, com suas abonanças e ociosidade, representada no livro pela família Gregoire, donos da mina de carvão Voreux, e das mulheres operárias, na sua extrema pobreza e exploração através da família Maheu, na qual o sustento esta no trabalho na voreux. As diferenças sociais gritantes, que geram revoltas e repressões, e concluindo com a mulher minimizada pela sociedade, excluída das principais decisões inclusive da sua própria vida.

Palavra chave: Mulher; Sociedade; Diferenças.

Emile Èdouard Charles Antoine Zola, nasceu em Paris (França), em 2 de abril 1840, e morreu na mesma cidade, em 28 de setembro 1902. Foi o criador do gênero de romance naturalista, influenciando autores muito importantes da literatura em língua portuguesa, como o português Eça de Queirós e o brasileiro Aluísio de Azevedo. Para compor Germinal (1881), trabalhou durante dois meses como mineiro de extração de carvão, Sentiu as dificuldades do trabalho árduo e extenuante das minas, o calor, as moradias insalubres, as doenças e as greves conflitos durante todo o período.

Vivendo nas décadas finais do século XIX, em que a fé no progresso e o culto à ciência imperavam nos círculos intelectuais em nível praticamente mundial, o estilo de Zola decorre a de uma fusão do romance realista de Balzac, Stendhal e Flaubert, baseados na crítica de costumes sociais, com autores da biologia e da medicina, como Darwin e Claude Bernard. Da fusão do realismo com a biologia, Zola criou a escola naturalista, em que a análise social, crítica, do comportamento de seus personagens busca fundamentos no conhecimento científico da biologia de sua época. Assim, as características mais marcantes de sua obra, presentes também nos demais autores naturalistas, como o zoomorfismo, a visão do homem como animal, totalmente guiado pelos instintos, a ação humana influenciada por questões patológicas, e o determinismo pelo meio, sendo o homem um animal como todos os outros, vive em busca de se adaptar ao meio, portanto, o meio é um fator determinante ao comportamento humano, é mais forte que qualquer ação individual.

O livro Germinal se inicia com a chegada de um novo operário Etienne, que esta desempregado, e procura emprego na companhia de mineração, ele se depara com o velho "Boa Morte", apelido dado ao velho Vincent Maheu, por ter sobrevivido a Três acidentes na mina. Este senhor está com 58 anos, sendo que trabalha na mina desde seus oito anos. "Boa Morte", tosse muito, tendo sua saúde totalmente debilitada. Toda sua família trabalha nas minas de carvão, sendo uma "tradição" da família Maheu: seu avô começou com quinze anos.

Etienne se surpreende com o processo de produção, com as precariedades das condições de trabalho, miséria e exploração. Maheu, um dos trabalhadores mais antigo e respeitado, consegue vaga para ele, uma vez que uma operária havia falecido Aqui, todos os membros das famílias trabalham das crianças aos idosos, sendo que o número de salários por pessoa garante o sustento de toda família. Quando alguém morre ou deixa a família é necessário substituí-la imediatamente, para não baixar a renda familiar. Na família só os menores não trabalham (Lénore, 6anos; Henri, 4anos, Alzire, 9anos, por ser enferma) e sua esposa, a qual fica em casa cuidando de Estelle, três meses. Os filhos maiores todos descem nas minas: Catherine de 15 anos, Jealin de 14 anos, e Zacharie, de 21 anos. Eles acordam às 4 horas da manhã, cumprem jornada pesada de trabalho, e mesmo assim, a renda não é suficiente devido aos baixos salários. Essa era a triste realidade da família, neste trecho Zola ilustra o desespero, na esposa de Maheu:

E a mulher de Maheu continuou a lamentar-se, cabeça imóvel, fechando os olhos de vez em quando, à triste claridade da vela. Falou do guarda-comida vazio, das crianças que pediam pão, do café que faltava, da água que dava cólica e dos longos dias passados a enganar a fome com folhas de couve cozidas. (...). Novo silêncio, Maheu estava pronto; ficou imóvel um momento para, a seguir, encerrar a conversa com sua voz profunda: - Que queres? Não há outro jeito, arranja a sopa como puderes. Melhor é ir trabalhar do que ficar aqui conversando. - Claro - respondeu a mulher. - Apaga a vela, não quero ver a cor dos meus pensamentos (ZOLA, 1979, P.25-26).

A Voreux faz parte, das treze minas que ficavam ao redor da região de Monstou. Aqui os operários não sabiam quem eram os donos, porém sabiam que o Sr. Hennebeau era o diretor geral da Voreux. Já o Sr. Grégoire era acionista e herdara da seu bisavô a mina Piolaine, sendo que seu primo, o Sr. Deneulin era o diretor desta. Estes três senhores estavam preocupados com as notícias da economia e da política, as quais estavam afetando seus negócios e com a provável greve que se anunciara. Preocupavam-se porque pertenciam à burguesia detentora de poder e riqueza, os contrastes são revoltantes:

Naquela manhã, os Grégoire levantaram-se às oito horas. De ordinário, só saíam da cama uma hora mais tarde, dormindo muito e com paixão, mas a tempestade os enervara. E enquanto o marido fora logo ver se o vento não fizera estragos, a Sta.Grégoire descera a cozinha em chinelos e roupão de flanela. (...) a cozinha era muito grande e percebia-se a importância que davam a essa peça pelo seu extremo asseio e pelo arsenal de caçarolas, utensílios e potes que a enchiam; cheirava a comidas boas; as provisões chegavam a não caber nas prateleiras e armários. (ZOLA, 1979, P.81-82).

Na sua propriedade os Grégoire moravam em um casarão, com criadagem, cocheiro jardineiro “e como o serviço era patriarcal, de uma pacatez familiar, esse pequeno mundo vivia em harmonia” (ZOLA, 1979, P.82). Tinham uma única filha Cècile de 18 anos, a qual devotava muito carinho. “Ambos se curvaram para contemplar com adoração àquela filha tanto tempo desejada, vinda tardiamente quando não esperavam mais” (ZOLA, 1979, P, 83).

Essa situação de falta de segurança no trabalho, extrema pobreza dos mineiros gera uma greve. “E os estômagos gritavam, e esse sofrimento vinha a aumentar a raiva contra os traidores. - Às minas! Nada de trabalho! Pão!" (ZOLA, 1979, p.339). Na obra, o autor explicita que as mulheres para conseguirem comida, tinham que manter relações com o proprietário do armazém. E quando a greve se inicia, elas invadem o armazém para saqueá-lo. O dono se esconde num telhado, no entanto cai e com tamanha fúria e revolta elas, no ato de barbárie, arrancam-lhe o membro. A insatisfação pelas condições e a penúria são tão extremas que impulsionam os grevistas a inlucidez e a revolta. Em que "as mulheres é que, sobretudo, se exaltavam; a mulher do Maheu fora de si, com a vertigem da fome (...)" (ZOLA, 1979, p. 251) é a que mais impressiona, pela sua garra e determinação, em querer mudar àquela situação subumana e degradante.

As greves, mais do que por maiores salários ou jornadas de trabalhos menores, eram greves pela forma de vida e de trabalho que os operários estavam vendo acabar. A revolução industrial mudou a vida das mulheres agora transformadas em proletárias Para Michelle embora cada vez mais mulheres tomassem lugares nas fabricas cada sexo continuava a ter suas funções, seus papeis, quase que predeterminados “ao homem, as madeiras e os metais. A mulher, a família e os tecidos” PERROT (1988, p.178).

Em toda esta trajetória, Michele Perrot, mostra de forma clara, a dupla discriminação que a mulher operária e esposa sofrem. Se não bastasse perder o emprego para as novas máquinas, a mulher vê o seu marido também perder o emprego e desta forma ela sofre duplamente, pois perde como operária e como esposa/mãe. ”Quando as mulheres entraram em casa com as mãos vazias, os homens as olharam em silêncio e baixaram a cabeça. Era o fim... o dia terminaria sem uma colherada de sopa”. (ZOLA, 1979, p.266)

Não é só a mulher das classes menos favorecidas, que sofrem esta exclusão da vida pública, a mulher burguesa também sai de cena aos poucos. A fábrica sai da casa do patrão, e vai para o subúrbio ou para o interior, a mulher burguesa vai perdendo a liberdade, sendo aprisionada em casa. ”A sta. Hennebeau já estava ficando cansada; a princípio sentira-se bem naquele papel de mostrar bichos, distraída por um instante no tédio do seu exílio”.(ZOLA,1979, p.113). E com normas de comportamento cada vez mais rígidas:

Ela cobre seu corpo segundo um código estrito que a cinge, espartilha-a, vela-a, enluva-a dos pés a cabeça. E é longa a lista de lugares onde uma mulher ‘honesta’ não poderia se mostrar sem se desagradar. A suspeita persegue-a em seus movimentos; a vizinhança, é espiã da sua reputação, até seus criados a espreitam; ela é escrava mesmo em sua casa (PERROT, 1988, p.200).

Sobra-lhe somente às obras de caridade como forma de atividade pública: “Os Grégoire encarregavam Cécile da distribuição de suas esmolas. Com isso pensavam estar inculcando na filha uma bela educação.”. (ZOLA, 1979, p.98)

Até mesmo nos sindicatos, a presença das mulheres, muito comum no início de sua história, é cada vez mais vista pior. O movimento sindical vê no movimento feminino algo desordenado, e que não incorpora a luta de classe, acha que a presença das mulheres, nas greves é perigosa, porque desorganiza o movimento que perde sua força. O que se pretende aqui é exemplificar, não só a mulher dona-de-casa, ou a mulher operária ou ainda a mulher mãe, mas a mulher em todas as suas atividades.

E sua eterna luta, para ter seus direitos de igualdade, garantidos e respeitados.

Referências Bibliográficas:

FARACO. C.E. Língua e literatura. 6. ed. São Paulo: ática, 1986.

PERROT, Michelle Os excluídos da historia: operários, mulheres e prisioneiros. Tradução Denise Bottmann. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 332 p.

ZOLA, Émile. Germinal. Tradução Francisco Bittencourt. São Paulo: Abril Cultura, 1979. 535 p

Um dia no museu

Denis Aparecido Mendes de Oliveira é aluno do curso de História e desde o ano passado se descobriu um professor apaixonado pela profissão. Sua dedicação esmerada ao curso unida à criatividade artística (Dênis é vocalista da Banda Denis Grillo e Os Gafanhotos) permite que ele tenha um olhar singular sobre a profissão que abraçou e uma postura ímpar diante dos alunos. Em todas as conversas que tenho com ele, aprendo muito e adoraria que ele repetisse a experiência de dar mais aulas que eu pudesse assistir.

Sua participação nas aulas de Patrimônios, museus e arquivos foi intensa. Além de produzir uma aula para os seus colegas e para a turma de primeiro semestre do curso, colocou as reflexões em prática com seus alunos.

O texto que segue é um relatório que ele fez para as atividades culturais narrando a experiência de uma visita ao MIS, Museu da Imagem e do Som.



Um Dia no Museu.
Local:
Museu da Imagem e do som – MIS, Av. Europa, 158 – JD. Europa.

“Entre-Temps” – Obras do Museu de Paris.

Palavras chave: Museu – Educação – Escola – Educador.

Sabendo da visita que faria com a sala da 7ª série do ensino fundamental da escola “Ivone Palma Todorov Ruggieri”, à exposição “Entre-Temps” procurei entrar em contato com a temática abordada pelas obras e fiz algumas leituras para instruir os alunos antes do passeio para aumentar a perspectiva que teriam das obras.

A mostra abrange várias obras de vídeoartistas que imprimiram discussões fundamentais para arte contemporânea como Dominique Gonzalez-Foerster, Philippe Parreno e Pierre Huygue e outros expoentes que emergiram na década de 90.

As obras estão ligadas diretamente a temas contemporâneos como solidão, a ideologia capitalista, depressão, a velocidade do cotidiano, estresse, o medo entre outros.

Os alunos sentiram-se mais nas obras. Há um vídeo, por exemplo, que mostra um homem fazendo Cooper e, o tempo todo, dialoga como se falasse para alguém que o ouve, mas não corre com ele. Passa-nos a impressão da velocidade da vida, de saltos em momentos, da maior atenção ao trabalho do que para família e com minhas interferências, até por compreender também a realidade dos meus alunos, fiz observações que os motivassem a pensar em suas próprias vidas e como tratam seus momentos, se aproveitam realmente suas experiências, logo se identificaram, identificaram seus pais ou amigos.

Ao observar as obras entraram nelas, criticaram, concordaram. Ao sair do museu ficou um sentimento bem diferente de quando saíram, mas como historiador eu tenho certeza de que este fato, aquele momento abriu rupturas positivas na educação e na história individual de cada um.

Porém, o ponto mais fascinante ainda foi o trajeto de ida até o museu. A escola fica numa região muito pobre e o museu no bairro dos Jardins, em São Paulo. Ao verem as grandes casas daqueles bairros nobres por onde passamos, enxergando o contraste social em que vivem, eles se espantaram. Ao saber que eles moram em barraco com seis ou sete pessoas e que, naquelas mansões, muitas vezes moravam um casal de velhinhos, eles sentiram o porquê da expressão artística de maneira crítica e o porquê de tantas obras que mostram normalmente coisas tristes.

Esta visita me deu oportunidade de enxergar muito além da sala de aula ou do museu. A quantidade de informação que jorra sobre nós todos os dias, como bairros que fazem contrapontos imensos em relação à distribuição de renda nacional, podem cada vez mais fazer sentido à medida que os alunos entram em contato com as contradições a partir da ampliação da visão de sua realidade e quando passo a construir aulas que considerem muito mais essas relações sociais tão contrastantes.

Complementando ainda costumo dizer, nesta minha curta carreira de educador (que parece ser promissora), dentro da sala de aula, que estar na escola é entender o ser humano, suas criações e tecnologias. E “Ser” humano é ter sentimentos, distintos, espero sempre considerá-los, respeitá-los, pois, só poderemos diminuir a gama de coisas ruins pelas quais hoje temos que temer, quanto mais lemos, vivemos experiências e aproveitamos delas o máximo podendo construir outra realidade.

O mundo não é cor de rosa estas ações não são fáceis, assim como certa vez ouvi numa peça de Shakespeare: “O mundo não para, para que você recolha os cacos do seu coração”, porém, existe a possibilidade de desmoronar os momentos que esmerilham corações, mas para isso temos que ter em mente “o tempo”. O tempo de observar, registrar e refletir. Acredito que assim podemos tornar algo mais viável, mais possível a realidade do educando fazendo com que haja ferramentas para viver e não sobreviver.

Paulo Freire disse algo simples, porém que ecoa mais que teorias longas sobre a educação e que talvez neste momento para muitos educadores possa fazer sentido, diz assim: “Não há Educação sem amor.”

Pesquisa para toda vida

Mauro Rizo é um daqueles alunos que levou algum tempo para escolher o tema a ser defendido no Trabalho de Conclusão de Curso. E quando o descobriu, se apaixonou. Paixão que envolveu amor e sofrimento. Mauro percebeu que os caminhos que levam à construção de nossa História podem ser revelados por lugares que queremos esquecer, mas que registram nossa memória. Ele decidiu estudar um patrimônio histórico brasileiro, Paranapiacaba, a partir de seu cemitério.

As dificuldades foram enormes, mas o empenho maior. O tema da pesquisa não rendeu apenas um TCC, mas hoje Mauro prossegue suas pesquisas em história cemiterial e criou um blog para divulgá-la.

Biblioteca Mundial Digital

Recebi notícia por e-mail encaminhado por nosso sempre colaborador Marcel Alves Martins e repasso para vocês.
Unesco lança biblioteca mundial digital
Daniela Fernandes

De Paris para a BBC Brasil
A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) lança nesta terça-feira a Biblioteca Digital Mundial, que permitirá consultar gratuitamente pela internet o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países, entre eles o Brasil.

Dezenas de milhares de livros, imagens, manuscritos, mapas, filmes e gravações de bibliotecas em todo o mundo foram digitalizados e traduzidos em diversas línguas para a abertura do site da Biblioteca Digital da Unesco (www.wdl.org).

A nova biblioteca virtual terá sistemas de navegação e busca de documentos em sete línguas, entre elas o português, e oferece obras em várias outras línguas.

Entre os documentos, há tesouros culturais como a obra da literatura japonesa O Conde de Genji, do século 11, considerado um dos romances mais antigos do mundo, e também o primeiro mapa que menciona a América, de 1507, realizado pelo monge alemão Martin Waldseemueller e que se encontra na biblioteca do Congresso americano.

Entre outras preciosidades do novo site estão as primeiras fotografias da América Latina, que integram o acervo da Biblioteca Nacional do Brasil, o maior manuscrito medieval do mundo, conhecido como a Bíblia do Diabo, do século 18, que pertence a Biblioteca Real de Estocolmo, na Suécia, e manuscritos científicos árabes da Biblioteca de Alexandria, no Egito.

Até o momento, o documento mais antigo da Biblioteca Digital da Unesco é uma pintura de oito mil anos com imagens de antílopes ensanguentados, que se encontra na África do Sul.

32 instituições

A Biblioteca Nacional do Brasil é uma das instituições que contribuíram com auxílio técnico e fornecimento de conteúdo ao novo site da Unesco.

O projeto contou com a colaboração de 32 instituições, de países como China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, México, Rússia, Arábia Saudita, Egito, Uganda, Israel e Japão.

O lançamento do site será acompanhado de uma campanha para conseguir aumentar o número de países com instituições parceiras para 60 até o final do ano.

"As instituições continuam proprietárias de seu conteúdo cultural. O fato de ele estar no site da Unesco não impede que seja proposto também a outras bibliotecas", explicou Abdelaziz Abid, coordenador do projeto.

A ideia de uma biblioteca digital mundial gratuita foi apresentada à Unesco pelo diretor da biblioteca do Congresso americano, James Billington, ex-professor da Universidade de Harvard.

Ele dirige a instituição cultural do congresso americano desde 1987 e diz ter aproveitado o retorno dos Estados Unidos à Unesco, em 2003, após 20 anos de ausência, para promover a ideia da biblioteca digital.

"Eu lancei essa ideia e sugeri colocá-la em prática nas principais línguas da ONU, como o árabe, chinês, inglês, francês, português, russo e espanhol", diz Billington.

Ele se baseou em sua experiência na digitalização de dezenas de milhões de documentos da Biblioteca do Congresso americano, criada em 1800.

O objetivo da Unesco é permitir o acesso de um maior número de pessoas a conteúdos culturais e também desenvolver o multilinguismo.

Patrimônio e ideologia

Uma das coisas que mais me fascinam no magistério é poder descobrir em cada aluno sua subjetividade. E a grande mágica acontece quando o aluno e o professor, vinculados pelo desejo de saber, se encontram e brilham juntos.

No primeiro semestre de 2009 tive uma experiência maravilhosa numa turma de 5º. Semestre de História. É uma turma brilhante, viva, muito intensa e criativa. Vocês já leram alguns trabalhos produzidos por alunos desta turma: Marcel, nosso permanente colaborador, Alecos, que possui uma escrita instigante capaz de traduzir com cuidado os desdobramentos de sua inteligência minuciosa, Gideoni Cardoso da Costa, com um olhar criativo e inovador sobre o mundo e Flávia Silva, pesquisadora apaixonada que ainda inscreverá seu nome na historiografia brasileira.

Estes meninos são apenas uma amostra do brilhantismo desta turma. E juntos, vivemos um momento especial. Uma das aulas que realizamos neste semestre foi sobre globalização e regionalismo, diante da sociedade do espetáculo. E esta aula mexeu com todo mundo. Mas um par de olhos vivos me chamou atenção. Rutimiriam, sempre muito atenta, mas quieta, logo se manifestou encaminhando-me por e-mail um texto cheio de idéias que foram além do conteúdo que tivemos condições de discutir em 90 min.

O conhecimento em construção é assim...permanece para além da aula e lá fora cresce, toma corpo. E Rutimiriam deu corpo às nossas discussões.

Pena que aqui não há imagem de seus olhos. Porque o saber só faz sentido quando toca, pois só quando toca transforma. E como brilham os olhos desta menina!

Abaixo, segue a generosidade que teve ao compartilhar o texto de sua avaliação conosco.

Relação Ideologia X Patrimônio Cultural
Rutimiriam Ferreira Porto Costa


“Sociedade propriamente histórica” segundo Marilena Chauí, é o termo que identifica uma sociedade específica que desenvolveu ao longo de sua existência, ferramentas para controle de massas, por meio da Ideologia. Essa Ideologia não exerce controle específico do dominante para o dominado, ela necessita de uma adesão total de crenças já que a divisão ideológica feita, não está centrada na divisão de trabalho ou financeira dentro daquela sociedade, mas ela deve representar uma divisão universal, ou seja, aquela determinada cultura, aquele determinado país torna-se a referência do que há de melhor para ser seguido. Mas não basta implantar um modo de pensar e viver só aparente, é assim que deve viver também a sociedade que a implanta. Nicolau Sevcenko(1999, p.123) cita dados concretos sobre a interatividade dos americanos com os meios visuais interativos “Vinte e três milhões de americanos estavam conectados com a rede em 1998, com as adesões crescendo a cada dia. Em meio a esse turbilhão de imagens, ver significa muito mais que acreditar.”

A justificativa para que vários povos de diversas culturas acreditem e aceitem como verdade que seu bem estar e seu progresso estejam vinculados a similaridade aos padrões de comportamento e consumo dos países mais ricos, foi desenvolvida por várias gerações que se moldam e se mascaram apoiadas em explicações míticas ou teológicas sobre sua origem e permanência, atribuindo-se a si mesma autoridade e poder.

Isso só é possível porque segundo Marilena Chauí (1981, p. 19) “o campo da ideologia é o campo do imaginário, não no sentido de irrealidade ou de fantasia, mas no sentido de conjunto coerente e sistemático de imagens ou representações tidas como capazes de explicar e justificar a realidade concreta.”. Esse sistema é elaborado para ocultar o domínio de um grupo social sobre o outro e esconde-se e fortalece-se sob a imagem da globalização, ou seja, todos devem ter acesso às novas ordens mundiais para que possam fazer parte dela.

As diversas formas de mídias e a informatização bombardeiam as sociedades pelo mundo todo com sua ideologia através da “Indústria Cultural” que é o meio para realização da cultura dominante. Mas não seria possível tal efeito caso houvesse por parte das sociedades que não as dominantes, o reconhecimento de que seu próprio Patrimônio Cultural lhes basta e que é possível tirar dele os subsídios para manutenção de sua existência futura dentro das suas reais e particulares necessidades, e não as que são ditadas pelo modal. O Patrimônio Cultural de um povo está ligado a sua identidade e interesses, e por temor a essa identidade é que a ideologia prega a descartabilidade e a renovação, seja de imagens como as das igrejas, monumentos, literaturas, caminhos, heróis, enfim tudo que possa lembrar o momento de unificação daquele povo ao longo da sua história, esses símbolos devem parecer obsoletos e ultrapassados dando lugar ao “atual”.

O pensamento, que é a maior área de atuação da ideologia deve ser mudado e adequar-se ao pensamento global através da alienação. Marilena Chauí defende que uma poderosa arma contra os discursos ideológicos seria o contradiscurso, não no sentido de preencher as lacunas em branco deixadas por ele, mas encontrar pontos divergentes em si. É nesse ambiente de distorções e disfarces que se concretiza o imperialismo. Um contradiscurso poderia encontrar bases a partir da apropriação e conscientização de cada comunidade de seu Patrimônio Cultural. O sentimento de identidade e de cidadania estaria fortalecido e questionaria a autencidade de documentos e monumentos utilizados pelos outros Estados. Em contraposição ao que deve ou não entrar em desuso, mantêm-se os registros e monumentos da historiografia da “sociedade propriamente histórica”, aquela responsável pelo desenvolvimento da humanidade, segundo Le Goff em suas diversas formas, seja pela arquitetura, escultura ou como documento histórico escrito, os documentos servem de testemunho do poder. Esse poder objetiva ficar registrado na memória coletiva a fim de permanecer e mostrar às gerações futuras sobre sua existência, e, mais que isso, avisando e instruindo as massas sobre sua força.

Outro artifício é o discurso para as massas onde se ignora o individual. Esta é uma questão importante a refletir. O indivíduo na sociedade atual não existe, o que existe é a busca de um espelho para que ele possa escolher com quem mais se identifica, ele busca seu eu no outro para que possa encaixar-se em algum nicho. Em sua obra “Sociedade do Espetáculo”, Guy Débord percebe que essa projeção da imagem transforma o cotidiano em cenas de um Espetáculo, onde as pessoas escolhem atuar na vida real desempenhando um determinado papel estabelecido de acordo com suas possibilidades de consumo. Existe então uma confusão do real de fato que se transforma em realidade condicionada, repetida e divulgada inconscientemente. “O espetáculo – diz Débord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’.”

Enxergar-se enquanto indivíduo pertencente a uma realidade regional e distanciar-se do ser consumidor globalizado torna-se uma possibilidade cada dia mais distante, porque o que a grande massa tem como projeto de futuro está desenhado a partir de estéticas preestabelecidas e negá-lo causaria uma perda de referências, esse vazio precisaria ser preenchido com uma nova imagem, mais independente, mais autêntica, mais concreta, mas onde ela está? Em suas memórias culturais? Talvez.

Gilmar de Carvalho, um pensador das produções do povo nordestino, expressa esse desejo falando de raízes, “Viemos do sertão. Essa negação problemática é responsável por muitos traumas. Queremos deixar de ser caboclos e assumir novos códigos, na marra. Fomos ingleses no tempo da Casa Manchester. Passamos para a França com a bandeira tricolor dos paquetes da Boris Frères. Durante a Segunda Grande Guerra, fomos invadidos pelos norte-americanos que até hoje não saíram daqui e trouxeram uma bebida gasosa, cuja fórmula de fabricação é guardada a sete chaves. Pior: trouxeram um estilo de vida e uma visão de mundo. Muitos ainda se deslumbram com o império hegemônico que dá visíveis sinais de decadência. O sertão se degrada na periferia da cidade. Esse desgaste se acentua com a pauperização das manifestações culturais vindas na bagagem dos migrantes.” Ele completa seu protesto com um saudosismo das quadrilhas e pastoris já extintos, e encerra com as palavras que não há como substituir e nada melhor para concluir: “E assim caminha a Humanidade. E assim vamos levando tudo isso, rindo da própria desgraça, legitimando o que não merece e levando a sério o que deveria ser objeto de escárnio.”

Bibliografia

CHAUÍ M. Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas.2ed.São Paulo: Moderna, 1981.220p.

CARVALHO, G. Ofícios, tradição e gambiarra. Disponível em: http://angelica.hoeffler.zip.net/arch2008-03-09_2008-03-15.html. Acesso 30 mar.2009.

DÉBORD, G. Sociedade do Espetáculo. Disponível em: http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/comentariosociespetaculo.pdf. Acesso 30 mar.2009.

LE GOFF, J. História e Memória. Tradução Irene Ferreira.al. 2ed.Campinas:UNICAMP, 1996.554p.

SEVCENKO, N. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Patrimônio imaterial

Em 2005, tive o privilégio de conhecer uma das turmas mais criativas e revolucionárias para a qual já lecionei. Alunos e alunas inquietos, criativos, competentes para planejar e por em prática o que acreditavam como proposta de educação e de vida. Foi nesta turma que conheci Thiago Fijos, "menino" que comparecia às aulas de bermuda e skate e que muitas e muitas vezes superou todas as expectativas (grandiosas) que eu tinha em relação a seu grupo e a ele. Não dá pra dissociar Thiago de sua vida como capoerista. E um dos trabalhos que pedi que fizesse, nas aulas de Museologia e Arquivologia sobre Patrimônio, ele escreveu uma belíssima monografia, de pesquisa ímpar sobre o tema. Até hoje tento convencê-lo a transformar o trabalho num mestrado. Hoje Thiago Fijos é licenciado em História, leciona na rede pública estadual de São Paulo e é estudante de Ciências Sociais. Há um ano, ele e sua turma revolucionaram a universidade em que estudaram com uma Semana da Consciência negra inesquecível, que contou com grupo de Maracatu, palestras sobre Candomblé e, como não poderia deixar de ser, um grupo de capoeira do qual Thiago faz parte.


Muito generoso, Thiago redigiu o texto que segue para publicá-lo neste blog. É só uma amostra da rica pesquisa que ele empreende.

Capoeira Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro
por: Thiago Fijos de Souza


Meio milênio depois de sua avassaladora força de resistência, ao sistema escravista, a capoeira finalmente é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial[1] Brasileiro.

Batizada posteriormente as suas efetivas atividades, em meados do século XVIII, a capoeira teria se materializado aqui, nas terras do além mar, no início do século XVI com a chegado dos primeiros africanos, os quais não dispunham de armas alguma para enfrentar o covarde empreendimento europeu, a escravização do “outro”, nos quais os povos autóctones do novo mundo, além dos africanos, não escaparam das atrocidades impostas pela ocupação e exploração européia.

É dentro deste contexto que o corpo do oprimido vai tornar-se arma, pois este é seu único recurso imediato para enfrentar o poderio bélico europeu. A prática da luta corporal negra nunca foi tolerada durante todo o período escravista, tendo que se camuflar de várias formas para continuar existindo. As concepções periculosas da luta adentram o período da República Velha (1889-1930), nas quais a população excluída dos postos de trabalho, após a abolição da escravidão (1888), continuou utilizando a luta, sua astúcia e malandragem para subsistir dentro da complexa política instituída no Brasil depois da Proclamação da República (1889), em que o negro, apesar de liberto, não foi inserido como cidadão e continuou fora dos planos da elite nacional. Isso veio a provocar cicatrizes até nossos dias.

Ainda no século XIX a capoeira ganha oficialmente o título de crime com o vigor do código penal de 1890:

“Fazer nas ruas e praças publicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação capoeiragem acarreta pena de prisão celular de dois a seis meses; sendo circunstância agravante pertencer a alguma malta ou bando; aos chefes ou cabeças seria imposta pena em dobro ; os reincidentes podem ter uma pena de ate três anos; se o capoeira for estrangeiro, deveria ser deportado após cumprir pena.” (CAPOEIRA,2001,p.43).

Talvez este tenha sido um dos períodos mais contraditórios da história da capoeira, pois apesar de perseguida e criminalizada ela também foi muito utilizada por partidos políticos e pela elite brasileira:

“Capoeiras e capangas eram tradicionalmente usados também por políticos e poderosos em geral como instrumento de justiça privada’’(...) “Muitos capoeiras integram a Guarda Negra que dispersava comícios republicanos. A própria policia fazia uso deles como agentes provocadores ou informantes” (CARVALHO, 2004,p.155)

Esta conotação subversiva da capoeira iria se alterar após o golpe de Getulio Vargas (1930), que vai promover a capoeira como um esporte nacional, através da metodização da capoeira de Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado, 1900-1974), na qual passa a chamar-se Luta Regional Baiana, e por incrível que pareça, no Estado Novo (1937-1945), a capoeira passa a ser ensinada nas forças armadas brasileira. Mas a capoeira primitiva não deixa de existir, e ainda carregando o estigma marginal, a Capoeira Angola recusa os métodos propostos por Bimba e continua a ser praticada livremente, no sentido do seu desenvolvimento intuitivo e natural, tendo a frente Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1899-1981). Estes dois nomes citados são dois dos grandes homens que marcam a história da capoeira, muitos mestres contribuíram para a construção da luta e do titulo por ela atribuído no dia 15 de Julho deste ano, porem se nos atrevêssemos a citar mais nomes nunca contemplaríamos todos os construtores dessa herança cultural, assim como o breve histórico da própria capoeira descrito nestas poucas palavras, no mais todo brasileiro tem um pouco de capoeira, a miscigenação nos proporciona esta virtude e a riqueza do ritmo, do molejo, da criatividade, da estética, da coragem e da brasilidade do povo mais heterogêneo do mundo.

Portanto a arte da capoeira supera o preconceito após 500 anos de existência, onde participou ativamente da história do pais, nas rebeliões populares, nos redutos quilombolas, na luta por condições de sobrevivência, nas quais a luta libertadora, consciente e educadora, hoje , com merecimento a conquista do titulo de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

BIBLIOGRAFIA:

BIMBA,Mestre. Curso de Capoeira Regional. RC Discos/Fitas Salvador. (?)

CAPOEIRA, Nestor. Os Fundamentos da Malicia. 7.ed.. Rio de Janeiro: Record, 2001.

CARVALHO, José Murilo de. Os Bestilizados: 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

GARCIA, Victor Alvim Itahim. Historias e Bravuras de Besouro : O Valente Capoeira . Rio de Janeiro: Abada Edições, 2006.

PINSKY, Jaime. A Escravidão no Brasil. 12.ed. São Paulo: Contexto, 1993.

PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução Política do Brasil. 16.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: Ensaio Sócio-etnografico. Bahia: Itapuã,1968.

SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Como proteger os bens imateriais? Disponível em: http://www.geocities.com/lagopaiva/comoprot.htm. Publicado em 27 ago. 2000

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[1] O patrimônio imaterial é subjetivo e intangível,”1. dos saberes (conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades); 2. das celebrações (rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social); 3. das formas de expressão (manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas); 4. dos lugares (mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas).” (SOFFIATI NETTO) Os parâmetros citados são uma simplificação do artigo 1 do Decreto 3551. de 04 de agosto de 2000, onde se redefinem os conceitos que definem o Patrimônio Imaterial Brasileiro.

Bestializados

Em novembro de 2008, por ocasião das comemorações da Proclamação da República, os alunos do curso de História monitoraram uma exposição criada por eles sob a coordenação da Profa. Lucirene Caragnato sobre a República Velha. Turma criativa, inquieta, produziu textos a partir de diferentes linguagens (sons, fotos, palavras, notícias de jornal...). O resultado foi a inquietação que sente o visitante quando sai da exposição pensando como tudo o que aconteceu na República Velha é tão atual.

Para representar esta turma, convidei nosso sempre brilhante colaborador, Marcel Alves Martins, para publicar o texto que redigiu e que está logo à entrada da exposição. Com isso, quero parabenizar a turma e a professora e trazer aos leitores deste blog um pouco das questões levantadas pelo trabalhos dos queridos e queridas do curso.

E nós, continuamos “bestializados”?
Por Marcel Alves Martins

“Glória à Pátria! Honra aos heroes do dia 15 de Novembro de 1889”. Eis as manchetes do dia seguinte à queda da Monarquia. Que heróis? Uma ala militar, que apressa a derrocada da Monarquia, já decadente, com um “desfile” ao qual o povo assistia bestializado, mostrando qual era a posição do mesmo no ato da Proclamação da República.

Constituída a República, tudo resolvido, afinal ela trará todas as soluções para os problemas encontrados no Antigo Regime com a “Ordem” e o “Progresso”. Mas que República? Qual o projeto de país pretendido por aqueles que fizeram a proclamação? Não sei. Mas o certo é que a república dos militares é distinta da república da burguesia cafeeira de São Paulo, que por sua vez é diferente da república do restante da população.

Qual República temos hoje? Também não sei, até parece que continuamos a assistir “àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava (e o que significa)”. Ao que tudo indica, e todos falam, esta cena continua a repetir-se sem que haja qualquer tipo de reação e/ou reivindicação, na medida em que insistimos em não participar da construção histórica de nosso país.

Será? O fato é que no ato da Proclamação o povo não teve participação, mas quem disse que, na construção daquilo que chamamos República, esse povo não foi agente desta história? Seria uma inverdade afirmar o contrário!

Ainda que alheia à proclamação da República, o que foi feito pelos militares, esta população foi de fundamental importância para os fatos seguintes. Quase sempre apresentada como massa homogênea e disforme, como povo, sem identidade e dignidade, os brasileiros estiveram muito longe disto. São gente, são pessoas, que vão à luta, mesmo no anonimato, para construir um país, para construir-se como gente, buscando dignidade.

Seja num Belo Monte com bons conselhos contra a República opressora ou na Contestação do avanço do capital estrangeiro opressor, seja na longínqua Juazeiro com os fiéis de meu “padinho” ou nas grandes cidades, por meio das lutas operárias por melhores condições de trabalho e salários dignos; seja com João Cândido contra a chibata ou com os cariocas contra a vacina.... São homens, mulheres, imigrantes, no campo ou na cidade, com religiosidade ou sem, que buscam uma Res – pública, uma coisa que seja de todos e para todos; que ela dê dignidade, preserve os direitos, puna as injustiças e preze pelo bem de todos.

Pergunto-me se hoje também não é assim. Nas “Marias” e “Josés” que saem para a labuta, na busca de melhores condições de vida, na defesa dos que são excluídos, nas reivindicações e nas indignações com a situação que está posta, mas que não é eterna. A luta é a mesma, buscamos construir uma República que seja de fato de todos, lutamos contra os abusos no anonimato, à surdina, mas nunca mórbidos, atônitos e surpresos.

Tanto lá quanto aqui lutamos, participamos, buscamos ser agentes da história, na construção de um país, ou pelo menos na organização de um projeto de país. As situações mudaram, mas a luta continua viva e a resistência parece correr nas veias. Mesmo sendo apresentados como massa, como povão, nós estamos aí, buscando dignidade, identidade; homens, mulheres, imigrantes... o processo ainda não parou!

Cabe agora uma pergunta:

E você, continua bestializado?!