Nesta manhã eu acordei com minhas idéias um pouco confusas. Lembrei-me que não precisaria trabalhar já que é o meu dia... o “dia dos professores”. Como quem não mais consegue se livrar da rotina levantei-me e parei para me observar no meu velho espelho, e naqueles pequenos momentos, deixei que minha mente me contasse tudo aquilo que penso sem medos e com pouco pudor (que habita em idéias pouco mastigadas). Aproveitei cada segundo, já que tenho poucas oportunidades de realizar tal nobre ação... minha mente tem tido pouca voz nesses dias de árduo trabalho.
Como em um turbilhão de sensações me senti um hipócrita. Como podia estar em casa, sonolento, em dia tão importante? Por que não estava nas ruas reivindicando uma condição de vida mais digna? Entretanto, o estar em casa me causou enorme alívio... tenho andado estressado e preocupado com a minha saúde. Devo admitir que o trabalho tem me consumido e as correções de trabalhos e a preparação de aulas tem me tirado os momentos de folga. Mas enfim, para sobreviver em minha profissão devo me sujeitar a essas enormes jornadas.
Logo passei a imaginar a contradição que isto significa. Enquanto devo trabalhar de forma estafante, muitos de meus companheiros têm que se desdobrar para lecionar em diversas escolas, quando ainda possuem campo para trabalhar! Seria tão difícil se criar jornadas mais lógicas e justas com remunerações mais dignas? Não pude deixar de esboçar um discreto sorriso ao meu reflexo... não sou tão culpado assim de tantos problemas educacionais, como afirma minha nobre secretária! Deixei de duvidar que estavam transferindo para mim e meus companheiros uma ingerência que transcende os limites das salas de aula.
Inúmeras possíveis soluções pairaram em minha mente em frações de segundo, mas todas elas se resumiam a uma coisa: “vontade política”. De fato as relações políticas têm seus efeitos diretos em nossa vida cotidiana, mas em nosso caso, são a essência de nosso labor. Nós, professores, não vamos para a sala de aula despidos de ideologias, ideais e valores. Não brincamos de escolinha, mas queremos formar cidadãos! Ora, estão tentando nos fazer esquecer disso!
O discurso furado da educação neoliberal que nos trata somente como funcionários, aplicadores de cartilhas e propostas são a maior prova de a quem nossos dirigentes estão servindo: o grande capital que se apropria da mão de obra barata que formamos e de nosso próprio esforço, no já manjado discurso do “se não está satisfeito, que procure outra profissão!” Estufei meu peito e não contive que meus lábios dissessem ao ar, um forte e convicto “não!”
Irriguei aquele momento com minhas lembranças de quando era eu o aluno. Sentado, calado, admirando a sabedoria dos meus professores. Ah... aquela professora que me mostrou Marx, Da Vinci, Dali, Ghandi! Como sonhei em um dia poder mudar a vida de alguém da mesma forma! Como fiquei orgulhoso em me sentar pela primeira vez no banco da Universidade, sabendo que em breve realizaria meu sonho... o primeiro dia de trabalho? Inesquecível! Tremi, mas não me esqueço dos rostos de cada aluno voltados para mim, o grande ator no palco da educação!
Como alguém pode agora me dizer que se não estou satisfeito que mude? Mudarei sim... a minha postura, as minhas aulas, a minha forma de ver o mundo!
Não consegui conter o avanço dos meus pensamentos. Havia algum tempo que não conseguia reorganizar meu mundo... percebo hoje que talvez seja esta a intenção daqueles que nos ditam regras e nos fazem auxiliares de sua burocracia interminável: limitar nosso campo de visão para que não vejamos que os problemas são mais estruturais que ocasionais.
Ah, meus alunos... se eu sofro, imagine eles! Não importa a sua idade, não passam de crianças, muitas oriundas de famílias desestruturadas, envoltas em uma realidade que o Estado não é capaz de solucionar. O exemplo e as oportunidades vêm daqueles que nem sempre dão bons exemplos. A luta pela sobrevivência faz com que muitas dessas crianças fiquem a mercê de situações que se refletem diretamente em nosso cotidiano. Devemos culpá-las? E que exemplo nós temos dado?
Por outro lado temos um Estado negligente, que em sua incompetência, transfere para as escolas problemas que competem e ele resolver. Senti-me orgulhoso em entender que na verdade eles têm medo. Medo é a palavra correta. Medo de que nossos alunos realmente aprendam e percebam que seu modelo de gestão está errado. Medo de assumir a sua culpa histórica na deteriorização da educação. Medo de não formar uma mão de obra submissa e dependente para compor as fileiras de seus industriais.
Mas percebi que o maior medo é de nós professores. Eles sabem bem que somos nós que podemos mudar tudo isso. Que através da aplicação de nossos conhecimentos e vivências (não digo de técnicas, mas de cidadania) podemos abalar esta poderosa estrutura, que esconde seus medos e incapacidades em um discurso liberalizante. Naqueles minutos eu percebi que temos mais poder que imaginamos... o poder de nos mobilizarmos e de ultrapassar a famosa educação bancária para ministrar valores, sentimentos (é, a educação envolve sentimentos!)... enfim, condições para uma vida digna aos nossos alunos.
Aquela sensação inicial de sair e reivindicar voltou a tomar conta de mim. Entendi que valia a pena trocar um dia de descanso por uma vida profissional mais tranqüila. Que as muitas palavras já nada resolverão, é preciso mais, é preciso ação!
Me senti orgulhoso novamente de ser professor. Ainda que seja difícil, não há nada melhor. Já vestido (com todo o meu arsenal ideológico) resolvi sair e dizer tudo aquilo que todos nós sabemos, mas que nos faltam oportunidades de falar. A verdade é que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Não importam os anos de magistério, mas sim o amor que nos despertou a educação e é esse amor que é capaz de superar qualquer descaso ou problema social... basta que acreditemos. Enquanto deixarmos os medrosos ditarem regras, as propostas audaciosas jamais emergirão.
Aqui estou e chamo a todos aqueles que também sabem de seu poder de mudança. Que sabem que é do seio de nosso trabalho que pode surgir a esperança.
Com orgulho digo, Parabéns professores! O futuro do mundo está em nossas mãos e façamos dele bom uso.
Gustavo Querodia Tarelow
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Respostas de um espelho
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Discussão
O tamanho de um sonho
Gustavo Querodia Tarelow entrou na minha vida durante sua graduação em História. Em virtude da qualidade dos trabalhos que apresentava, sempre brinquei com ele perguntando se os mais recentes também seguiriam o padrão Querodia. Tudo o que Gustavo fez sempre foi genial, primoroso. Não poderia ser diferente no momento em que comoveu a família e amigos ao apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso na Semana de Pesquisa promovida pelo seu curso. Gustavo estava pronto para caminhos maiores. E seguiu este ideal. No texto que segue, conta um pouco deste percurso. Tal como Diana Navas, o depoimento de Gustavo é importante para que todos aqueles que um dia sonham com o que lhes parece impossível, acreditem que podem, com esforço e dedicação vivenciar o que até então era esperança.
Obrigada, Gustavo, pelo depoimento.
O tamanho dos sonhos
A cada dia tenho aprendido que o mundo é do tamanho de nossos sonhos. Se nossos sonhos forem grandes, o mundo sempre será um espaço a ser conquistado e cada novo desafio se tornará uma experiência valiosa.
Com 17 anos de idade ingressei na Universidade, no curso de História, o meu grande sonho até então. Sonho realizado com gosto especial pois na época eu estava desempregado e meus pais não poderiam de forma alguma custear meus estudos. Na busca por uma oportunidade, conheci o Programa Universidade para Todos, o PROUNI, criado naquele mesmo ano e com inexplicável alegria recebi a notícia de que havia sido aprovado e estudaria na UNIABC. Naquele momento não conseguia imaginar nada além de me formar e poder realizar o meu outro sonho que era de voltar à escola em que havia cursado o Ensino Fundamental para ministrar as minhas aulas.
A verdade é que eu era apenas um idealista na Universidade e desejava aprender em cada situação e em cada experiência, em cada diálogo, já que era um dos mais jovens de minha turma. Ali busquei me esforçar, mas na minha visão, onde eu estava era o ápice, sobretudo quando, já no segundo ano do curso, consegui meu primeiro emprego, na escola em que eu havia estudado. Ao ver meus companheiros, muitos já professores de outras disciplinas, já graduados em outras áreas me sentia pequeno, com “muita lenha para queimar”.
Entretanto, ainda no meu primeiro semestre no curso, conheci uma professora muito importante para a minha formação.
Minha relação com os meus professores era de respeito e admiração e poucas vezes me dirigia particularmente a eles, até por medo de fazer perguntas bobas. Mas com esta professora foi diferente. Ela, ao ler alguns de meus trabalhos acadêmicos, me procurava para discutirmos alguns pontos, sempre com um elogio, mas sempre com sua criticidade peculiar. Eu sempre admirei o fato de ela ler com tanto empenho nossos trabalhos e dialogar conosco com tanta base.
Este tratamento que recebi mudou minha postura. Me deu mais firmeza e segurança naquilo que produzia, liberdade para que eu me sentisse apto a buscar mais informações com todos os demais professores e me ensinou que um professor pode sim fazer diferença na vida de um aluno. A partir desse momento entendi o que era uma Academia e que era neste espaço que eu gostaria de firmar meus passos.
Dada a obrigação de redigirmos um Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC, para completarmos nossa formação, procurei esta professora para apresentar a proposta da pesquisa que eu gostaria de realizar, a saber, a história das políticas públicas em saúde mental no município de Santo André. Ela prontamente aceitou a proposta e me incentivou a realizar uma pesquisa elaborada, dado o pouco enfoque historiográfico sobre o tema.
Exatamente por não haver um trabalho deste tipo para nos dar base, tivemos muitas dificuldades em meio à pesquisa. Ao buscarmos auxilio com a professora que em um primeiro momento nos orientou, fomos aconselhados a mudar de tema, o que nos gerou uma enorme frustração. Todavia, a minha querida professora, que não estava nos orientando oficialmente ainda, acreditou que poderíamos superar tais impasses e que poderíamos fazer um bom trabalho. O apoio dado foi ainda maior quando ela assumiu a orientação dos TCCs no último semestre do curso. A partir de então a pesquisa fluiu e pudemos concluir nosso trabalho.
Além disso, ela nos deu a honra de apresentarmos as conclusões de nossa pesquisa no lançamento de seu livro, o que foi uma responsabilidade e tanto! Mas foi assim que ela me fez acreditar que eu podia alçar vôos maiores. Meu sonho cresceu. Eu desejava cursar um Mestrado e poder ministrar aulas em uma Universidade para talvez ter a mesma importância na formação de outros alunos. Meu mundo ficou maior, pois já não tinha mais medo de sonhar.
Já formado, alimentava o sonho de cursar o Mestrado e meu foco era a USP, inegavelmente a maior Universidade do Brasil, mas não tinha a menor idéia de como adentrar na pós-graduação e não possuía um Orientador definido. Tinha apenas em mente a idéia de ampliar a pesquisa realizada no TCC. Adivinhem para quem pedi ajuda!
Foi esta mesma professora quem me indicou o Laboratório de Estudos da Intolerância da USP como um caminho possível. Descobri que um ex professor da UNIABC realizava pesquisas no laboratório e ele por sua vez me indicou para a sua Orientadora, Zilda Lokoi, que nos informou sobre as pesquisas da professora Maria Amélia Dantes, sobre História das Ciências no Brasil. Assim, enviei um e-mail para ela, pedindo que lesse meu TCC e se ela poderia orientar meu trabalho, já que as inscrições estavam se encerrando. Ela aceitou, desde que o recorte temporal fosse modificado para a década de 1930 e o foco geográfico fosse o estado de São Paulo.
Assim, passei pelas seleções, inclusive de forma milagrosa pela prova de proficiência em Inglês, já que nunca havia feito nenhum tipo de curso de idiomas. Iniciei o Mestrado em História Social em julho de 2008 e mais um sonho se realizou. Sei que coisas maiores virão, mas compreendi que como diria Raul, “o sonho que se sonha junto é realidade”.
Por isso agradeço a Deus por ter me feito viver tudo isso e por ter colocado pessoas em meu caminho que se dispuseram a me ajudar e que acreditaram em mim. Entre estas pessoas, está a professora que sempre terá um lugar cativo em meu coração.
Um abraço a todos,
Gustavo Querodia Tarelow
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depoimentos
Contra a xenofobia
Recebi a imagem a seguir do querido Prof. Roberto Benjamim, presidente da Comissão Pernambucana de Folclore. Segundo informa no e-mail, a imagem fora veiculada na Espanha, após as numerosas deportações.
Filosofia da educação
No primeiro semestre de 2008 fui brindada com a disciplina Filosofia da Educação no sexto semestre do curso de Letras. turma vibrante, ,madura, de olhos atentos e mente fervilhante. Uma das reflexões pedidas e feita por dois alunos, Laura e Rodrigo, segue logo abaixo.
Protágoras e Sócrates - Relacionando as filosofias
Laura Lucy Dias,
Ricardo Lima
Alunos concluintes do curso de Licenciatura em Letras em 2008.
Em nossos dias vemos na prática de ensino muito do que a filosofia já apontou, em relação ao sofista Protágoras e ao Sócrates temos muito que observar e aprender.
Realmente a mistura das duas filosofias ocorre, porém não podemos dizer que de forma harmônica. A questão do sofismo que se relaciona com a aquisição de poder ocorre na educação contemporânea, mas não é em relação a quem adquire o conhecimento e sim em relação a quem o oferece e para quê. Hoje a visão da necessidade de ter um povo alfabetizado está voltada para o mercado de trabalho, o que contraria a Sócrates, que acredita que a educação não deve ser útil, o indivíduo deve aprender para depois entrar no mercado de trabalho com um conhecimento prévio sobre si mesmo e necessário para exercer a sua função.
É complicado falar que todo o método utilizado hoje seja tradicionalista, e que este remonta totalmente ao padrão Sofista, mas não podemos deixar de notar que simplesmente sua base é acompanhada de pitadas desta filosofia. Como? Os currículos definem o que será aprendido pelo aluno, um conhecimento pré-estabelecido é entregue e deve ser aplicado diretamente na mente do indivíduo pelo professor, que por sua vez não exercita a prática de ensino além da exposição de conhecimentos que foram gerados por outros, sem o mérito de discutir e gerar outros conhecimentos que não estes.
Já com Sócrates vemos que a necessidade do conhecimento da sua própria ignorância leva o indivíduo a gerar idéias e isso é uma forma diferente de se ensinar. A possibilidade de ver o ser através de sua individualidade e depois universalizá-lo é algo até romântico, mas na prática deve ser pensado, sua correção deve partir da formação de nossa sociedade e seus pensamentos, e por isso talvez devêssemos olhar mais para a virtude, como Sócrates, para assim entendermos a sua proposta de ensino e sua filosofia em geral.
O capital vem antes de tudo para a sociedade na qual vivemos, e sua virtude é o poder que pode causar, então como podemos em um mundo capitalista vislumbrar a virtude antes do capital? Talvez esta seja a pergunta eminente para alterar a base de nossa sociedade, entretanto a discussão aqui cabe a métodos de ensino, e em relação a isto talvez pudéssemos trazer pequenas alterações, mas estas propostas seriam barradas na impossibilidade da falta de capital destinado à educação.
Para a possibilidade da maiêutica, como método de pesquisa, talvez seja a disponibilidade de material, e principalmente a alteração na consciência social na valorização do aprendizado desde a infância, o que retornaria ao cunho político. A questão da retirada do Currículo seria algo que derrubaria a estrutura do ensino nacional, como ensinar um aluno de acordo com a filosofia de Sócrates (que leva o aluno a gerar uma idéia)?
Sabemos que a necessidade de levar ao aluno o conhecimento de coisas pré-estabelecidas é necessária devido a sua inserção na sociedade, porém poderíamos fazer com que ele as pensasse, mediando como tantas propostas nos trazem, para isso precisamos de alunos mais motivados e isso leva à necessidade de ensinar o que eles querem aprender. Então o que faremos? Ele não quereria aprender nada, o professor pode se esforçar e, partamos do pressuposto que ele tenha conseguido que o aluno se motivasse, mesmo que através de estímulos ou de alguma outra forma, então o aluno seria levado à pesquisa, e passaria a formular as idéias pré-existentes, num processo de desenvolvimento e não de assimilação por mera exposição destas idéias, e isso levaria o aluno a uma autonomia que é tão prevista pelos PCN´s e introduzidas pelo neoliberalismo, porém tão pouco motivada e mesmo possibilitada.
O conhecimento para os sofistas era algo que deveria ser condicionado, isto significa que deveria ser assimilado e não gerado, ao contrário do que diz Sócrates. Está, também, nas mãos dos professores mudar o conceito do ensino de hoje, podemos pelo menos tentar fazer com que o indivíduo tenha sua autonomia, o que pode ser muito mais valoroso até do que lhe proporcionar a possibilidade de se condicionar a ser virtuoso, em vez de sê-lo pela essência dos valores adquiridos com a educação, como Sócrates queria.
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Trabalhos
Olhar sobre o cotidiano
Cristiano Alexandria de Oliveira é nosso colaborador constante. Já demonstrou suas habilidades com a palavra ao escrever poesia e outros textos de caráter literário para o blog. Neste artigo, ele discretamente nos revela outras facetas: ele projeta seu olhar de artista plástico e pensador da contemporaneidade sobre a cidade. E naquilo que parece banal vê oportunidade de reflexão, de leitura. E nos ensina ...
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Sobre as africanas de resina
(Ou:” existe arte popular demais”?)
Cristiano Alexandria de Oliveira
Nas prateleiras das lojas de resina, principalmente na Avenida 25 de março, no centro de São Paulo, é visível o aumento da quantidade daquelas estátuas que representam negras africanas. O brilho da cor da pele e as cores vivas dos ornamentos chamam a atenção dos consumidores, que estão trocando os velhos anjinhos anglo-saxônicos por esta nova e exótica opção.
Observando bem as estátuas, percebe-se que todas elas são baseadas numa etnia única: os sudaneses da África negra, que vivem nas savanas da zona boreal. Esta etnia é caracterizada por indivíduos altos e esbeltos. As roupas e utensílios também distinguem este grupo dos demais africanos. Uma sub-raça dos sudaneses, chamada de “nilóticos”, que habita as regiões às margens do rio Nilo, define melhor ainda o tipo representado. São pessoas altas, membros longos, cabeça pequena e lábios delgados.
Estas características são muito acentuadas nas estátuas. A figura, quando observada num primeiro momento, chama a atenção por parecer desproporcional. Mas basta um minuto a mais de atenção para percebermos a singeleza das formas, a suavidade das curvas, a doçura dos braços que parecem quebrar ao menor toque, segurando lanças de caça, baldes e crianças.
Há um sem número de opções e tamanhos para se escolher. Mas o que mais me chamou a atenção foram as estátuas sem rosto. Herdeiras de uma tendência modernista em escultura, a íntima relação entre o real e o abstrato e a harmonia presente mesmo nas formas exageradas dão à obra um valor notável, tanto que assume valor de mercado. Digo isto porque é mais fácil, hoje em dia, para uma obra de arte ter valor artístico do que econômico, como item de compra em potencial.
Quando eu as vi pela primeira vez, achei que estivesse ocorrendo uma heresia contra um Vítor Brecheret, um Henry Moore ou um Alfredo Ceschiatti. Afinal, a temática, as formas, as idéias, o imaginário moderno em escultura estava ali sendo vendido, em resina, ao lado de um pedaço de papel rasgado escrito em letras garrafais “quebrou, pagou”, misturado com dragões chineses raivosos, miniaturas de espadas, Budas e Shivas. Tudo muito “capitalizável”.
Mas não. Fui obrigado a reconhecer a beleza das africanas magrelas em seus afazeres domésticos. Os famigerados anjinhos anglo-saxônicos permaneciam lá, de forma cristã, os mesmos. E merecem ter a sua beleza barroca reconhecida. As pessoas em volta ora manifestam apoio às africanas, ora reprimem, alguns por puro preconceito. Não preconceito contra os negros. Mas contra a arte.
Eu apoiei. Demorei um pouco, mas compreendi. Compreendi não só o valor daquelas peças, baratas até pelo tanto de história que carregam. Mas compreendi o valor de Bernini, Míron, Antonio Canova e Michelangelo, escultores de base realista, clássica, que se (sub)desenvolveu nos amáveis anjinhos anglo-saxônicos; e o valor de Brecheret, Ceschiatti e Lehmbruck, escultores modernos, voltados para a harmonia das formas geométricas, que se (sub)desenvolveu nas amáveis africanas. Tudo em resina, arte pura, a preços bem mais em conta do que nos leilões.
Afinal, não era isso o que os modernos queriam? Enfim, a arte mais popular, a arte no centro das cidades, nas principais zonas de comércio, dentro de cestas como se fossem mantimentos, compradas por atacado, acessível às classes mais baixas, tão nossa quanto arroz e feijão, causando espanto, tirando as pessoas de seus estados catatônicos, incentivando o diálogo artístico e a crítica até dos que não são críticos.
Pois é. Passeando pelas ruas de uma São Paulo carente, encontro ao menos um sorriso dos heróis de 1922, escondidos atrás das frias prateleiras de uma loja de resinas
Hipocrisia
Texto escrito em abril de 2008.
Hipocrisia
Há aproximadamente quatro semanas aconteceu uma grande tragédia. Uma inocente e doce criança de seis anos de idade, de nome Isabela, foi estrangulada e jogada de um prédio, muito provavelmente pelo pai e pela madrasta, fato este que tomou conta dos noticiários e mobilizou grande parte da sociedade. Após tantas investigações, depoimentos, provas, exames, resta-me um sentimento: cansaço! Cansado da hipocrisia com que esta atitude bárbara tomou conta de nossas vidas. Não há um lugar sequer que não comente e que não se clame por justiça... Hipocrisia!
Talvez você esteja achando que sou um desumano e sem coração, caro(a) amigo(a), ao dizer que estou cansado (talvez indignado seja o termo correto). Mas é verdade, não agüento mais ligar a TV ou abrir o jornal e a manchete “Isabela” tomar conta das atenções. Não que eu queira que os culpados saiam ilesos ou que seja a favor de tais atitudes; no entanto o que vejo é que esta JUSTIÇA que pedimos no caso desta doce criança não é para todos.
Vou contar-lhes uma história, mas é claro que já viu em alguma manchete de jornal: em dezembro de 2005, antevéspera de Natal, dois adolescentes Fernando e Fabiano, 17 e 14 anos de idade respectivamente, saíram para ir a uma festa (que não existiu). Com a autorização do pai, os dois irmãos saíram, com a promessa de voltarem cedo para inaugurarem, no dia seguinte, o quarto novo, recém construído e mobiliado (talvez como um “presente de Natal”). Nunca mais voltaram... a festa era uma cilada, a volta se deu um dia depois num caixão para a missa de corpo presente.
É possível que você diga: “dois nóias que roubavam ou deviam grana para os traficantes”. Eu e tantos outros dizemos o contrário, pois convivíamos com ambos e sabíamos todos que o perfil dos dois jovens não se enquadrava ao de “nóias”, nem roubavam, nem deviam. Mas é certo que você já ouviu falar deste caso nos jornais, né?! Não!! De fato, não apareceu nenhuma manchete alertando que dois jovens foram brutalmente assassinados com vários tiros. Talvez porque o pai deles fosse um simples auxiliar de limpeza do postinho de saúde do bairro, que trabalhava o dia inteiro e à noite ia para a escola, recuperar o tempo perdido nos estudos. Ou então porque eles morassem lá no “fundão” da cidade onde ninguém escutasse os tiros ou os gritos por justiça! Talvez porque o Aneildo e a Luciene, meus amigos, não sejam tão importantes para ganhar as manchetes dos jornais com a morte de seus dois filhos... afinal, quem é Aneildo? E os filhos dele?
É possível que você pergunte o que aconteceu. E eu te digo: não teve polícia civil, equipamentos ultra modernos, manifestação e mobilização de boa parte da sociedade, investigação, depoimentos... o que teve foram dois corpos e uma família destruída. Qual crime é pior, o de Isabela ou o de Fernando e Fabiano? Os dois são horríveis! Por que somente o dela teve repercussão na mídia nacional?! Eu não entendo, por isso acho isso uma hipocrisia! É provável que você também conheça um ou mais casos destes que, assim como do meu amigo Aneildo (que voltou para o seu Ceará, já que a vida aqui em São Paulo não mais existia sem a presença de seus filhos), são desconhecidos e até mesmo ignorados. Gritos como este que grita só, sem ser ouvido... grito que é vencido pelo cansaço. Cansaço de esperar por uma JUSTIÇA que para ele não virá.
Quantas “isabelas” nestas três semanas foram assassinadas, espancadas, vendidas como prostitutas, abusadas sexualmente? Quantas “isabelas” morreram de fome no Nordeste e em tantos outros lugares de nosso país? Qual o número de “isabelas” que morreram doentes, nas filas dos hospitais públicos, sem nenhum atendimento ou vitimas da violência? Agora, enquanto você lê estas linhas meu caro(a) amigo(a), quantas “isabelas” gritam, clamam, imploram por socorro... e não são ouvidas?!
Justiça ao caso Isabela! JUSTIÇA TAMBÉM aos casos “isabelas” que não chegam à mídia, que não movem a massa, que não dão ibope, mas que são, como o de Isabela, monstruosos, desumanos, e que também requerem justiça... mas eu, estou cansado desta hipocrisia! As histórias do Fernando e do Fabiano e das “isabelas” não vão estar na capa dos jornais amanhã cedo. Talvez porque o Aneildo e os “josés” e “marias”, pais deles, não sejam conhecidos, ou porque o escritor destas linhas não seja famoso. E é provável que a justiça não venha (como está o caso do assassinato dos meus dois amigos) porque eu, Aneildo, Fernando e Fabiano, “isabelas” e tantos outros passamos despercebidos diante de UM caso tão horrível como o de Isabela, que ocupou e ocupará por um bom tempo as manchetes de todos os jornais, até deixar de aumentar a audiência.
Hipocrisia... estou cansado!!!!
Marcel Alves Martins
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Discussão
O tamanho de um sonho
Conheci Diana Navas quando era aluna do curso de Letras. Olhos vivos, cheia de vida, mente inquieta e constante insatisfação. Aluna dedicada, não se contentava com um trabalho bem feito, queria trabalho muito bem feito. Muitos professores admiravam aquela menina de fala articulada e exímia pesquisadora.
Como já dizia o poeta, não somos do tamanho da nossa altura, mas do tamanho dos nossos sonhos.
Mas Diana, apesar de todos estes atributos e do nome de deusa, é uma pessoa comum. Na graduação e depois dela partilhou comigo seus sonhos e muitas de suas inseguranças. Será que sou capaz? Será que vou conseguir? Este desafio não é grande demais? O que faz Diana tão especial é o tamanho de seus sonhos. Tudo fica pequeno perto deles. E com muito trabalho, conseguiu realizar parte deles.
Por isso, pedi para ela, hoje minha colega de trabalho, escrever o depoimento que segue. Nele, ela conta parte de sua trajetória para que sirva de inspiração a todos aqueles que acham que são apenas mais um número na matrícula na universidade. Você pode ser diferente. Basta reconhecer o quanto você é especial!
*****
Meu ingresso no curso de Letras da UniABC aconteceu em 2002. Movida pela minha paixão por livros e, principalmente, pelo fato de ter começado a ensinar inglês em uma escola de idiomas, entrei na faculdade com uma idéia fixa: queria me tornar uma professora universitária. Sabia que se tratava de um longo caminho a ser percorrido (afinal, acabara de iniciar a graduação!), mas, ao mesmo tempo, sabia que o primeiro passo já havia sido dado.
A princípio, meu interesse era na área de língua inglesa, em virtude do meu trabalho. O contato com excelentes professores de literatura, no entanto, despertou uma antiga paixão, nutrida desde a infância: a literatura – paixão esta que não foi apenas despertada, mas nutrida durante os três anos do curso.
No último semestre da Graduação, comecei a pesquisar cursos de mestrado em Literatura. Foram incontáveis as vezes que eu acessei os sites da PUC e da USP para saber das datas, do processo seletivo, sonhando um dia, ingressar em uma delas. Mas, embora quisesse muito, achava algo impossível: afinal, eu estava me graduando em uma faculdade particular (e eu acreditava que sofreria preconceito por isso) e não tinha condições financeiras para pagar o curso (no caso da PUC).
Nesta época, ouvi conselhos diversos: alguns professores consideravam loucura eu ingressar diretamente no mestrado. Outros, e estes eram os meus grandes exemplos, apoiavam-me a enfrentar este desafio. Seguindo o conselho destes últimos (ainda bem que não damos ouvidos àquelas pessoas que insistem em dizer que não vamos conseguir!) e a idéia de que “onde há uma vontade, há um caminho”, em março de 2005, fiz minha inscrição no processo seletivo para o curso de mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC.
Descrente de que pudesse ser aprovada (vejam que não são somente os outros que nos impulsionam para baixo – “nós” somos nossos grandes inimigos), entreguei meu projeto e, no dia da minha entrevista, tive a minha primeira surpresa: um dos mais renomados professores da PUC, o prof. Dr. Fernando Segolin, convidou-me para ser sua orientanda, afirmando ter gostado muito do meu projeto. Naquele momento, embora que ainda não completamente, comecei a acreditar que era capaz de tornar meu antigo sonho em realidade.
Fui aprovada no processo seletivo e iniciei o curso em agosto de 2005. Desde então, disposição, empenho, dedicação, trabalho, perseverança, muita paixão pela literatura, renúncias fizeram parte (e ainda fazem!!!) de minha rotina. “Sacrifícios” (assim os chamam as pessoas) que me renderam, no segundo semestre, graças a meu desempenho, uma bolsa da CAPES.
Não posso negar que foram dois anos difíceis, de renúncias e mesmo de um certo abandono da vida pessoal, mas, sem dúvida, foram anos primordiais para o meu crescimento não só acadêmico, mas, principalmente, pessoal. Cada conquista obtida contribuía para comprovar o que pessoas amigas, diziam e que eu insistia em não acreditar: você é capaz de fazer as coisas acontecerem.
A defesa do meu mestrado aconteceu em outubro de 2007 (exatamente três anos depois de eu ter apresentado meu TCC na Semana de Letras da UniABC). Fui aprovada com conceito dez e elogiada pela banca que afirmava que minha dissertação de mestrado poderia, com um pouco mais de tempo e pesquisa, transformar-se em uma tese de doutorado.
No início de 2008, comecei a trabalhar como professora da Uninove e já estava muito feliz com a realização do meu sonho. Porém, tive uma surpresa ainda maior: fui convidada para ministrar aulas no curso de Especialização em Literatura da PUC, substituindo aquele que é meu ídolo/amigo/orientador – o professor Fernando Segolin. Preciso contar a satisfação com que recebi este convite?
A leitura deste “depoimento” pode suscitar em alguns a idéia de que venho apresenta-lo como forma de exibicionismo. O que desejo, no entanto, é algo bastante contrário: é demonstrar e dar um exemplo concreto que somos capazes de concretizar os nossos sonhos. Que somos capazes de criar oportunidades. Que somos capazes de ver caminhos onde muitos só vêem obstáculos.
Vencer as barreiras que nos cercam (barreiras estas, muitas vezes, impostas por nós mesmos) está em nossas mãos. É uma questão de opção nos contentarmos com o que nos é “facilmente” oferecido ou partir em busca daquilo que é, aparentemente, impossível. É uma questão de escolha se colocar na posição de oprimido ou tentar fazer a diferença.
Tenho aprendido, a cada dia, a confiar mais em mim. A acreditar que sou capaz. A sonhar e confiar que posso realizar. E é por isso que já estabeleci uma nova idéia fixa: meu doutorado.
Como já dizia o poeta, não somos do tamanho da nossa altura, mas do tamanho dos nossos sonhos.
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