Das Terras de Paideia
Priscila Miranda Caetano
Um dia levantei sedento de novas aventuras, sempre fui peregrino, nunca tive casa minha, nem nunca me apeguei a nada desta vida. Sempre olhei o mundo ao meu redor e nunca me conformei com a desigualdade, ricos cada vez mais ricos, pobres cada vez mais pobres, o egoísmo humano alcançando níveis inimagináveis, cada um se preocupa apenas consigo mesmo e com seus próprios interesses, decidi me afastar de tudo, resolvi me isolar do mundo.
Cheguei ao porto de Santa Luzia e logo avistei um barco velho, todo desgastado, mas algo de muito especial senti naquela modesta embarcação, curioso comecei a me aproximar e logo veio ao meu encontro um homem de barbas cumpridas, semblante cansado, mãos e pés calejados, mas com um belo sorriso no rosto.
- Posso ajudá-lo?
Atônito com a estranha alegria do velho mal consegui pronunciar palavra e ele continuou...
- Por que estás tão assustado? Tenho boas novas para você. Já o esperava, nossos destinos estão ligados, temos uma longa jornada pela frente, entre logo precisamos partir...
Confesso que a primeira vista acabara de encontrar o sujeito mais maluco que já cheguei a conhecer, mas a sua loucura me pareceu tão convicta e racional que sem pensar entrei...
Começamos a navegar e enfim consegui dizer minhas primeiras palavras...
- Para onde estamos indo?
- Pensei que não me perguntaria nunca! Exclamou o velho homem... Estás à procura de aventura? Pois terás a sua aventura... Estamos indo a uma terra nunca antes conhecida, tão distante quando o final de tudo... Uma ilha de beleza incomparável e habitantes interessantíssimos.
Depois de meses de viagem, finalmente avistamos a ilha, ao nos aproximarmos muitas pessoas vieram à praia nos receber. A Ilha se chamava Paideia, era realmente fascinante a beleza do lugar, mas o que mais me impressionou foi a calorosa recepção.
Ao chegarmos à cidade chamada Das Cachoeiras, fomos levados até o prefeito, que prontamente nos recebeu. Descobri então que o velho do barco era um paideiense, o prefeito o cumprimentou com muito respeito e pediu-lhe que apresentasse a sua visita.
- Este é o homem escolhido pelo destino para contar ao mundo nossa história, enfim o encontrei!
- Que notícia maravilhosa! Exclamou o prefeito em grande vibração...
- De que destino falas? Que história é esta?
- Calma meu jovem... Terás muito tempo para descobrir este lugar! Respondeu-me o prefeito com um enorme sorriso...
Saindo da prefeitura, comecei a passear pela praça da cidade, avistei logo um grande parque com muitas crianças brincando e espaço muito amplo onde os jovens praticavam todos os tipos de esportes.
O velho então me contou que aquele era o horário de lazer para os habitantes da cidade, o fim de semana era sagrado para eles, descansavam e procuravam praticar esportes, pois o corpo era considerado o bem material maior. Ninguém trabalhava mais do que era necessário, todos viviam muito bem.
Quando o indaguei sobre a tal história que a pouco falara, história que já despertava minha curiosidade de uma maneira muito forte.
O velho começou então a falar...
- Há três décadas, Paideia vivia em caos total, os políticos corruptos se proliferaram no poder, instruídos por um único homem, que chegou a Paideia com boa oratória e grande carisma, conquistando a todos com suas palavras. Descobrimos tarde demais que eram palavras vazias, jogadas ao vento, sem nenhuma verdade ou lealdade. Desenvolveram um sistema político de fachadas e manipulações, nomeando ministros preocupados apenas com seus cargos e o quanto poderiam ganhar com eles. Entre estes ministros, o pior de todos foi o da Educação, ele instituiu nas escolas um sistema de gestão e metodologia ditatoriais e totalmente sem base educativa. Diminuíram o salário dos professores, diretores e funcionários, atando-lhes as mãos com conteúdos prontos e os proibindo-lhes de sair do “programa” instituído por estes homens. Isto para nós significou a grande ruína, sempre aprendemos que o conhecimento é poder, que o conhecimento é liberdade, o produto de tudo isto foi enfraquecimento e escravidão.
A alienação tomou conta das pessoas, que para sobreviverem trabalhavam muito e ganhavam pouco, os mais desafortunados nem trabalhar conseguiam e a nossa sociedade mergulhou na fome e na miséria.
As faculdades eram apenas para os ricos que descendiam ou tinham alguma ligação com a política. As vagas públicas foram restringidas por meio de processos seletivos de nivelamento muito acima do que ofereciam nas escolas, assim somente os que tinham educação particular na maioria das vezes ocupavam as vagas. Nosso povo era destruído aos poucos, recebiam migalhas e não conseguiam exercer com valor a democracia que naquele momento tinha sentido oposto, significava prisão.
- Mas o que aconteceu? Como superaram essa realidade? Perguntei ansioso...
- Nenhuma mudança acontece se as pessoas não reagirem, dizem que as grandes revoluções partiram de iniciativa estudantil... Alguns jovens pobres freqüentadores dessas escolas resolveram se manifestar, liderados por um homem de trinta anos chamado Petter. Uma grande comitiva saiu às ruas para protestar, pararam seus afazeres e começaram a discursar nas praças, a chamar a população para refletirem sobre sua realidade, para unirem-se e exercerem com competência seu direito a democracia e a liberdade. A popularidade desse grupo tanto cresceu que nas eleições seguintes, lançaram Petter candidato, sua vitória foi esmagadora e novamente a população saiu pelas ruas agora para levá-lo até a prefeitura e ver sua posse.
- Mas depois que se apossou do cargo não se acomodou também? Perguntei desconfiado...
- Muito pelo contrário, a primeira coisa que fez foi acabar com o sistema de conteúdos prontos e padronizados nas escolas. A segunda foi aumentar significativamente os salários de todos os membros da escola, valorizando a profissão de professor como deve ser valorizada, já que ensinar é tarefa acima de tudo nobre. Motivando assim os funcionários e eliminando os acomodados que não tinham compromisso com a educação de qualidade. A terceira e não menos importante foi promover um grande evento para reunir os alunos e os que tinham se afastado da escola para a inauguração do Dia do Saber, data que se tornou feriado nacional, comemorado todos os anos com muita festa e atividades educativas de todas as espécies. Neste grande evento, muitos mestres de todos os campos de conhecimento palestraram sobre temas universais, sobre conceitos que todos a partir daquela data deveriam adotar, estavam todos finalmente livres!
Depois daquela data histórica, passamos a viver de fato a liberdade que ansiávamos e pela qual lutamos bravamente. Nas escolas, os professores usavam de diversos métodos para trazer à realidade de seus alunos todos os conteúdos que aprendiam, passaram a promover fóruns de debates sobre política, economia, ciência, meio ambiente etc. Todos tinham direitos iguais e eram motivados a desenvolver seu pensamento crítico, a pensar na sociedade em que estavam inseridos e o que poderiam fazer para melhorá-la sempre.
Todos passaram a conhecer a si mesmos e a suas realidades, conquistaram o poder de pensar, de saber e de ansiar por conhecer mais, por aprender com tudo o que estava ao seu redor.
A partir desta data, os lazeres voltaram para o cotidiano das pessoas, aos finais de semana todos procuramos praticar esportes, freqüentamos também teatros, cinemas e shows, que estão ao alcance de todos.
Quando a semana começa, o estudo é a primeiro dever e o maior dos direitos, o tempo de estudo e trabalho são balanceados de maneira a ressaltar a importância de ambos, ninguém trabalha por um tempo que o faça se cansar para os estudos e ninguém estuda por tempo exagerado que o faça sedentário. Muitos cidadãos que tinham abandonado a escola por motivos diversos, depois disto voltaram para as escolas e eram incentivados a conhecer, eram ensinados que o conhecimento os tornava livres e prósperos, que os capacitava para trabalhar e para viver com qualidade e mudar seus próprios destinos.
- Que incrível... Suspirei emocionado...
Depois de ouvir esta história e de passar alguns maravilhosos meses em Paideia, estou agora a escrever não simplesmente sobre o que os meus ouvidos ouviram daquele modesto senhor, mas relato-vos o que contemplei, tive a certeza que a maior realização de um povo é a Educação, passei dias inteiros refletindo sobre o porquê “minha terra” também não pode experimentar essa revolução, abrindo suas mentes para viverem a vida plenamente, o homem existe para pensar, isto o diferencia do resto dos animais, fomos criados para mudar o mundo, fomos criados para crescermos e atingirmos nossos ideais.
O conhecimento é poder, precisei ir longe para enxergar o resultado disto, numa sociedade onde o saber é valorizado, onde o expressar-se é direito de todos, onde a manipulação não cega as pessoas, onde a democracia funciona, onde todos têm a visão da posição que podem atingir e o que precisam fazer para isso, num lugar onde a acomodação não é proliferada, onde os “panos quentes” são tirados, onde o ensinar e o aprender são valorizados, onde não há conformismo, onde há esperança de um futuro diferente, onde existe ideal e luta, neste lugar há liberdade, há plenitude, há homens e mulheres que encontraram sua verdadeira essência, seu verdadeiro sentido de viver, sua real identidade.
Das terras de Paideia voltei para mudar, trazer até o maior número de pessoas o verdadeiro conceito de Educação, de conhecer a si e ao mundo, de encontrar um sentido para sua própria existência, de lutar por seus direitos e cumprir seus deveres, de abandonar a visão de que não existe mais solução para a “coisa”, de que tudo é perdido. A Educação transforma, o conhecimento é liberdade e o pensar é o caminho! Esta é minha missão...
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