Reproduzo aqui texto escrito por Gilmar de Carvalho Para o Diário do Nordeste, de Fortaleza, em 24 de janeiro deste ano.
Como sempre, ele nos possibilita boas reflexões.
O pesquisador Gilmar de Carvalho realiza uma análise das relações da arte com a tradição, a partir de suas conexões com a mídia e as novas tecnologias
Um ponto de partida para se pensar a relação da arte com a tradição é analisar suas relações com a mídia e com as novas tecnologias, num contexto de valorização do mercado.
Tradições podem ser pensadas como as práticas de longa duração. Isso não significa que se mantenham à margem das modificações provocadas pela dinâmica da cultura. Pelo contrário, constituem a parte menos vulnerável à tensão das transformações sociais, às mudanças provocadas pelos novos padrões de comportamento, pelas questões de mercado, e pelo impacto das novas mídias e tecnologias.
Observar e acompanhar essas mudanças pode ser um exercício criativo e complicado nos dias em que vivemos.
De certo modo, a tradição vive um impasse: pode ser vista como anacrônica ou conservadora, por muitos, e é compreendida como fator de sedimentação social por outros.
Sem juízos de valor, preconceitos ou sem obedecer ao senso comum, vale menos o que se pode deduzir e mais a oportunidade desta discussão na contemporaneidade.
Partamos do pressuposto de que a tradição não se fecha às influências recebidas, cada vez maiores e de maior impacto sobre crenças, valores, manifestações, saberes, ofícios, celebrações, o que a Unesco achou por bem delimitar como o campo do "patrimônio imaterial".
Um importante teórico da Semiótica da Cultura, o ucraniano Iuri Lotman (1922 - 1983), afirmou que "toda obra de arte inovadora é elaborada com um material tradicional".
Vale ir adiante e pensar as relações da tradição com a mídia e o mercado, com todas as implicações possíveis no campo da economia, da antropologia e da comunicação.
Mídia
A mídia há muito deixou de ser um conjunto de aparatos tecnológicos com a finalidade de difundir mensagens. Esta seria apenas uma de suas funções, talvez a mais evidente e a menos importante.
Pode-se pensar a mídia como o lugar central ou nodal onde a sociedade se pensa e onde decisões são tomadas. Considere-se aqui o campo fértil das ideologias, a explosão demográfica, o processo de urbanização e a facilitação de equipamentos como rádios, televisores, computadores, "smartphones", câmeras digitais, mp3, e teremos uma babel de imagens, sons e material informativo que cria novas teias e novas redes de usuários e produtores, tornando viável a aldeia global antecipada por McLuhan.
Impossível pensar a sociedade atual sem o primado das mídias e sem as tecnologias de ponta que avançam, inexoravelmente, numa velocidade que nos deixa atônitos diante das reações que provocam e das situações com as quais nos deparamos.
É tudo muito novo, sem a ancoragem de grandes teóricos, numa abordagem multidisciplinar, onde vamos beber na fonte dos filósofos, dos sociólogos, dos antropólogos e dos semioticistas, com a inserção social de muitas tribos, novos públicos e a consequente ampliação do mercado.
No caso brasileiro, esta passagem é muitas vezes mais abrupta, quando segmentos marginalizados, com pouco acesso à palavra impressa, são jogados para o universo virtual, sem escalas e sem uma preparação para a aceitação de novos parâmetros.
Certo é que muitas situações são irreversíveis e não adianta lamentar, de modo reacionário, o avanço das tecnologias e das mídias, numa visão mais apocalíptica ou, de outro lado, também não vale festejar esse acesso como conquista ou como panaceia, como pretendem os mais integrados, na visão lúcida de Umberto Eco.
Temos situações curiosas que nos levam a reflexões mais densas nesse campo que envolve vida, cotidiano, arte e trabalho.
Pode-se partir do pressuposto de que as manifestações que fazem sentido para as comunidades continuarão sendo praticadas, ainda que com fortes mudanças.
Em meio aos "iluminismos" de toda ordem, interferências do mercado, da mídia e do impacto das tecnologias, fica difícil manter um ritmo de produção que satisfaça as expectativa de consumidores ávidos por novidades e que atenda ao ritmo de vida, de possibilidades e de superação dos artistas das camadas subalternas, perplexos, como todos nós, diante do frenesi contemporâneo de novas tendências, de superação do costumeiro e de manutenção da "aura" num contexto que se propõe serial, ainda que com as marcas sofridas de seus autores.
Apropriação
A ideia da tradição artesanal como ponto de partida para a criação ou releitura nas artes plásticas começa a dar sinais de vigor com o fim do academicismo. O desmoronamento do cânone e a falência de um modelo que dava evidentes sinais de desgastes, depois da fotografia, do cinema e de outras técnicas, fez chegar os ideais modernos, ainda que muitas vezes fora de tempo.
O modernismo brasileiro trouxe vislumbres do que seria uma "ingenuidade" caipira nas cores e em certa temática de Tarsila do Amaral.
No caso cearense, de modo mais tardio, estes referenciais só entram muito depois, porque esta apropriação da tradição e as bases do que seria uma cultura brasileira, com a valorização do barroco mineiro, da figura de Aleijadinho, e do conceito de miscigenação vai se reforçar com as viagens de Mário de Andrade, com o ideal antropofágico e explode com o Tropicalismo.
Vamos encontrar no jornal literário "José" xilogravuras de Aldemir Martins e Barboza Leite. Sérvulo Esmeraldo corria por fora, aqui, em São Paulo, e em Paris, cortando gravuras, levando o trabalho de Noza e se reforçando como o grande artista que é. Zenon Barreto pintou uma moça que virou cachorra, com visível influência das capas dos folhetos de feira e recorreu a quengas de coco, bilros, e outros materiais menos nobres para fazer esculturas que equivaleriam a uma versão politizada de nossa "pop art".
José Tarcísio vai dar o salto em grande estilo. Adérson Medeiros, com a apropriação dos ex-votos, escreve um capítulo importante das artes no Ceará. A parceria de Mariza Viana com Stênio Diniz ainda hoje rende frutos.
Mas não se trata apenas de colocar a tradição como "motivo" ou recorrer ao que fazem as camadas subalternas para se ter cor local. O modismo e o episódico não se sustentam no campo da arte que assume outro estatuto, o das experimentações das linguagens, que são levadas para outros limiares e o da significação mesma, uma questão filosófica, felizmente sem respostas prontas e acabadas e que têm feito a delícia das polêmicas, provocações e rupturas.
Nada mais falso que "assemblages" de bonecos de barro. Isto se sustenta nestas vitrines de decoração e supérfluo, que acontecem uma vez por ano, para gáudio de decoradores e "peruas".
Não se trata de dar receitas ou encontrar soluções; mas Espedito Seleiro, "designer" do couro, com sua oficina em Nova Olinda, com a criação de peças para as grifes Cavalera e Triton, faz o percurso inverso e é aceito porque tem competência e talento e não porque é exótico.
A família Cândido, que vive e atua em Juazeiro do Norte, parece ter encontrado na modelagem em barro das cenas, "temas" do cotidiano do Cariri, uma síntese, um ponto de equilíbrio entre criação e encomenda, entre tradição e contemporaneidade, atingindo uma aceitação pelo mercado que não implica em perda da força do ofício ou diluição de seus próprios fazeres.
Os Irmãos Aniceto, banda cabaçal do Crato, aliando música e performance (conceito tão caro a Paul Zumthor), parecem "eternos" diante da performance dos mitos Cariri e "clássicos" quando se discute mais uma vez a velha questão do popular um contexto em que a ênfase deveria ser dada à tradição.
Na outra mão desta vertente, os exemplos são poucos. A tradição é rejeitada e é bom que isto aconteça, na maioria das vezes. Não se pode cair na folclorização da arte. Até mesmo o artesanato precisa de um sopro renovador, que não se faz com os "modelos" da Ceart (Centro de Artesanato do Ceará), mas quando o próprio artista sente a necessidade da superação e tenta responder às cobranças e às exigências do mercado.
O "mangue-beat", movimento que agitou a cena cultural pernambucana fez isso bem, mas não se pode fazer isso indefinidamente. Esgotou-se a "fusão", o estranhamento se tornou redundância e acabou aqui num pretenso movimento cabaçal.
O cearense Efrain Almeida, radicado no Rio de Janeiro, retomou os ex-votos de Zé Tarcísio e Aderson e fez uma nova leitura, em tempos de delicadeza e agressão. Apontavam para endemias que falavam em grupos de risco e antecipavam, o apocalipse. Herbert Rolim também circulou pelo terreno das memórias. Stênio Burgos vai em busca de um sertão encantado e de um litoral ameaçado e faz uma grande pintura, com uma força surpreendente.
João Pedro do Juazeiro se supera na escavação de grandes pranchas de madeira industrializada para cortar suas xilogravuras que ganham cores e causam forte impacto.
Bordado
Tudo isso leva a uma viagem de volta aos cangaceiros de Aldemir Martins, aos bonecos de sucata de Zé Pinto e às festas do Nogueira.
Mas a grande referência desta relação entre o artesanal e a chamada "alta cultura" serão os bordados de Leonilson. Aqui, a tradição cearense do artesanato e da habilidade, construída desde os aldeamentos indígenas, explode com força, lirismo e contundência.
Os bordados, que dialogam, com as propostas artesanais de Artur Bispo do Rosário, como o manto que usaria para estar diante de Deus, são a mais perfeita tradução destes saberes e fazeres deslocados para um contexto de dor, onde a agonia ganha o estatuto de obra de arte, não pela morbidez, mas pela possibilidade de significar mais do que sugere a nossa vã filosofia.
Leonilson borda a impossibilidade, como uma Penélope que espera pelo mistério e olha para o infinito. Seu bordado não é desfeito, antes nos enreda nestes fios e nestas tramas de cumplicidade e sedução.
Ainda é cedo para saber o que tem sido feito no campo do vídeo-arte, da instalação e de outras propostas contemporâneas. Talvez os artistas jovens tenham uma extrema urgência, talvez o mal-estar porque sabem que viverão de editais e terão muitas dificuldades de acesso ao mercado ou talvez porque seja da essência da arte não ser compreendida e aceita no instante em que é feita.
Um excessivo narcisismo faz com que a proposta seja associada a fogo e ferro ao artista, preocupado com o próprio umbigo e querendo ser o criador, o curador, o galerista e até mesmo o comprador, leva a uma excessiva fragmentação e a uma impossibilidade de compreensão do que está sendo dito (ou não dito).
Vale pensar nos grafites de hoje como possíveis pontos de partida para nossa perplexidade diante da exclusão de parte da juventude do mercado de trabalho. Cifrados, eles significam pouco diante do que poderiam representar. Basquiat, Alex Valauri e Weaver Lima.
Talvez seja o momento de questionar a prevalência de um modelo. Se vivemos tempos de diversidade cultural por que a insistência no envelhecimento dos suportes tradicionais? Por que a instalação precisa matar a pintura, o desenho, a gravura e a escultura?
Se a pluralidade é a palavra-chave e politicamente correta de hoje em dia, talvez seja a hora de aceitar o que venha marcado pela sinceridade, pela consistência de uma proposta e pela seriedade de um percurso.
Tradição e contemporaneidade não são antagônicas, tampouco duas faces de uma mesma moeda. Parecem mais possibilidades de se olhar o mundo de modo mais rico, mais aberto e menos dogmático.
GILMAR DE CARVALHO*
ESPECIAL PARA O CADERNO 3*Gilmar de Carvalho é jornalista, professor da UFC e autor de livros como "Artes da tradição" e "Mestres Santeiros"
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