quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Utopia da educação 5

TUDO PODE MUDAR, BASTA QUERER!

Elisabete

Tudo começou em uma linda manhã de segunda-feira.

Lá estava eu, uma garotinha desengonçada, de 11 anos, acordando com o som do meu despertador, eram seis e meia da manhã.

Não acreditei que a noite tivesse passado tão rápido. Veio a mente Dona Enriqueta, logo ela na primeira aula desta segunda-feira. Dona Enriqueta era bem velhinha, com óculos fundo de garrafa, quase ceda coitada, com um birote enorme em sua cabeça branca, muito chata, desatualizada, desde que a conheci na 4ª série ela insiste em dar o mesmo conteúdo, só que agora já estou na 6ª série e continuo vendo “oxítona, paroxítona, proparoxítona, ditongo, hiato...”, e nem se quer nos passou as mudanças ortográficas que foram implantadas no início do ano...

Não bastando a chatice de suas aula, sua tirania era total, nem os mosquitos se atreviam a entrar na sala, o silêncio era total, parecia até que ouvia nossa respiração.

Na hora do intervalo era outra tortura, crianças se espancando, xingando-se, correndo, derrubando nossos lanches, nos empurrando, eu odiava, me escondia em um cantinho bem escondido atrás do ginásio para comer e não ser perturbada.

Nesta escola não há organização, na secretaria ninguém informa nada, pois sabem menos que nós.

Os muros, paredes, portas e janelas, já faz tempo que não vêem um tinta, os portões de entrada todos enferrujados e mau fecham direito, possibilitando a fuga dos mais levados por entre as frechas.

Organizando meu material, lembrei-me que no segundo período terei aula de geografia com o professor Adolfo, um pobre coitado, embora carregue diversos diplomas nas melhores universidades do país, ninguém o respeita, isto porque ele é muito “bonzinho”, todos o satirizam fazendo a continência de nazismo, (“Adolf Hitler”), ele não entendia nada e ainda acha engraçado.

É impossível fazer anotações em sua alma, todos conversando, rindo, jogando papeizinhos e giz uns nos outros, mesmo para nós que sentamos nas primeiras carteiras.

Acabei de arrumar minha mochila e fui à escola, com uma vontade enorme de sumir, mas não podia, meus pais me matariam, com certeza ficaria um bom tempo de castigo...

Distraída com meus pensamentos, tropiquei em uma raiz enorme que havia trincado a calçada. Segui-a com os olhos para saber a qual das árvores pertencera tão grande raiz.

Não demorou muito, logo a avistei, ela era linda, gigantesca, sua copa sumia entre as nuvens.

Senti-me atraída por aquele ser tão exuberante, fui direito ao seu encontro.

Quando fiquei embaixo da árvore, meus olhos não acreditavam no que viam, era muito mais bela, suas folhas e flores tinham cores muito vivas, seu tronco era muito grosso, tentei abraçá-la com meus braços tão pequeninos, mas para poder completar a circunferências, precisaria de mais uns 15 pares de braços.

Ao encostar o meu rosto em seu tronco, ouvi barulhos, vozes, risadas e percebi que viam de dentro da árvore, bati no tronco e percebi que este era oco, comecei a circular à procura de uma entrada, mas parecia que nunca conseguiria completar toda a volta, quando notei um sensível relevo no tronco, a cor era diferente do resta, tinha o formato de uma pomba com asas enormes, me encantei e não pude me conter, fui em busca daquela figura magnífica.

Coloquei umas pedras no chão para poder alcançá-la, finalmente quando consegui, uma frecha se abriu, uma luz muito forte que me cegou e algo me puxou com muita força, senti meus cabelos voando, um vento frio em meu rosto, senti a ponto de meu nariz congelar, parecia estar voando, mas com uma velocidade inexplicável, meu coração batia acelerado, não sabia o que estava acontecendo.

Subitamente caí de costas em algo macio, abri os olhos e me deslumbrei com a beleza que estava ao meu redor.

O céu azul cheio de pássaros coloridos, um sol maravilhoso, muitas árvores e comecei a sentir um perfume maravilhoso que vinha do jardim de flores que haviam amortecido a minha queda.

Havia flores de todos os tipos, cores e tamanhos, me levantei, recolhi os meus livros e cadernos e olhei para todos os lados para descobrir aonde eu poderia estar para encontrar o caminho de volta para a escola.

Mas para meu desespero e angústia, não conhecia nada, estava ficando com medo, quando comecei a ouvir vozes de crianças, segui aquele som e cheguei a uma trilha, logo adiante avistei um grupo de meninas e meninos com uniforme de escola, com cadernos e livros nas mãos.

Corri para alcançá-los, quando estava a poucos metros chamei-os, eles viraram para trás e vieram ao meu encontro. Achei estranho, pois parecia que me conheciam, e me conheciam mesmo, isso porque uma das meninas chamou-me pelo nome.

- Belinha, onde estava, achávamos que não iria à escola, apresse-se estamos atrasados! O sinal irá tocar em alguns minutos. E puxou-me pelo braço, sem entender nada, me deixei levar, no final da trilha lá estava, uma espécie de prédio com características de casarão, enorme, com cores azul, branco e detalhes em relevo de livros, de lápis, de borrachas por todas as paredes, não havia pichações, tudo muito bem conservado.

Na frente do prédio havia um jardim muito florido, cheio de borboletas e beija-flores, entre os jardins haviam vários caminho, onde ficavam algumas mesas cobertas com vários estudantes com livros lendo e fazendo lição, estudando em grupo.

Do lado esquerdo do prédio havia quatro quadras, que eram utilizadas para a prática de vários esportes, basquete, vôlei, tênis, futebol, atletismo..., do lado direito duas piscinas, uma para os pequeninos e iniciantes na prática de natação e a outra para os maiores onde faziam competições, elas tinham o formato da figura da árvore, ou seja, de pombas com asas enormes.

Nos fundo avistei um galpão enorme, parecia uma fábrica, alguns alunos mais velhos saiam e entravam por uma porta bem grande, todos de uniforme cinza, com sapatos pretos, óculos de proteção e capacete.

Fiquei curiosa e não hesitei e perguntei se não poderíamos entrar naquela fábrica. Todos me olharam estranhamente e disseram:

- O que você bebeu no café da manhã, Belinha? E você não sabe o que é?... São as oficinas profissionalizantes para os alunos do colégio, ainda temos muito chão antes de podermos estudar lá, temos que nos contentar com nossas matérias básicas....

O sinal tocou, todos se dirigiam calmamente para a porta de entrada, não entendia nada, principalmente a empolgação, não só dos meus “novos/velhos” amiguinhos, mas de todos os alunos.

Não podia acreditar! Como podiam gostar de ir à escola?

Cheguei a frente do prédio, me dirigi para o portão de madeira maciça que ficava na entrada, todo trabalhado, fiquei encantada com seu tamanho, era enorme, ao atravessá-lo acessei o corredor principal, foi quando comecei a entender, tudo muito limpo e cheiroso, organizado, não haviam crianças gritando, se espancando, correndo, mau educados, pelo contrário, todos conversando, brincando uns com os outros, andando isso mesmo andando e entrando de forma organizada em suas salas.

No final do corredor havia uma senhora muito distinta, elegante, simpática, os pequeninos do primário iam na sua direção para abraçá-la e beijá-la, me encantei com seu sorriso e seus lindos olhos azuis, que nos olhavam com muita ternura, parecia até um anjo.

Uma das meninas, a Ana, que encontrei na trilha, me puxou o cabelo e me indicou a sala para entrar e me “lembrou” que aquela senhora era a diretora, Senhora Clara.

Ao entrar na sala não acreditei, carteiras arrumadas em filas, muito bem conservadas pareciam recém compradas, limpinhas, a sala cheirava gostoso, tudo limpinho.

Sentei ao lado de Ana, fiquei sabendo que a aula seria de Língua Portuguesa, não acreditei, já me veio na mente a tal da Dona Enriqueta e a tal “oxítona, paroxítona...”, mas para minha surpresa a professora da matéria era uma jovem mulher, seu nome era Beatriz, parecia ter uns 40 anos mais ou menos, estava com um vestido colorido, era bonita e muito sorridente, cumprimentou a sala, sentou-se e começou a fazer a chamada, e estranhamente meu nome estava na lista e a professora me conhecia.

Terminada a chamada, a professora Beatriz começou a passar a matéria na lousa, não acreditei, finalmente análise sintática, comecei a ri sozinha, todos me olhavam sem entender nada.

Como Dona Enriqueta não ensinava nada, comecei a estudar sozinha, mas como toda matéria nova, tinha muitas dificuldades, principalmente em análise, fiquei tão feliz, pois agora sim conseguiria entender.

Dona Beatriz era muito gentil e paciente, ensinava todos da mesma forma, e tirava dúvidas daqueles que a questionavam.

Fiquei encantada com a aula e a professora. Ah!!... bem que ela poderia ficar no lugar da Dona Enriqueta!!!!!

Quando soou o sinal do intervalo, não quis sair da sala, Ana insistiu tanto que concordei e a acompanhei, mas já estava esperando para o pior, crianças gritando, caindo, se matando.

E, mais uma vez fui surpreendida, as crianças estavam brincando no ginásio, rindo, se divertindo, os grandes cuidando dos menores, ensinando regras de jogos.

No refeitório, tudo muito organizado, as tia da cozinha com luvas e tocas na cabeça serviam aos alunos, Na parede o cardápio com os dias da semana, nas segundas:arroz, feijão, salada de batata com ovos e frango assado; nas terças: macarronada com molho bolonhesa com almôndegas; nas quartas: arroz, feijão, bife com batata frita; nas quintas: arroz, peixe em molho com purê de batata; e as sextas: sopas, ás vezes de palmito, legumes, canja, de feijão.(todas as refeições acompanhavam salada de alface, tomate, sucos naturais, e sobremesas, gelatina, creme de chocolate, pudim, sagu, arroz doce, canjica)

Não acreditei, na minha escola só tínhamos chocolate com três bolachas de maizena.

Após o intervalo fomos para o segundo período, a matéria era geografia, coincidência demais!!!

Quando entramos na sala, o professor já encontrava-se na sala, com um globo em cima da mesa,seu nome era Pacífico muito sério, de óculos, meio calvo, gordinho, de descendência oriental, parecia bravo, nos cumprimentou e nos sentamos. Com o sinal de início do período começou a fazer a chamada, todos em silêncio iam respondendo “presente senhor”.

O senhor Pacífico abriu o livro de mapas e começou a nos explicar sobre as demarcações dos territórios, dos países que estavam em conflito, Iran, Iraque, Golfo Pérsico, Kuait, os motivos da guerra, o número de mortos, as destruições das cidades. Explicou-nos que muitos dos conflitos naquela região eram por diversos motivos entre eles a religião, a política, a economia, os poços de petróleo, a disputa pelo controle do poder.

Mostrou-nos um vídeo de crianças que viviam nestes países e fiquei chocada com o que vi, algumas haviam perdido os pais, irmãos, parte de seu corpo, mas o que mais me tocou foi que todos tinham um sorriso enorme em seu rosto, mesmo com tantos problemas, catástrofes, eles se mostravam fortes, com livros nas mãos, com força de vontade de enfrentar todo o caos para chegar a uma pequena sala, sem cadeiras, sem mesa, sem nada, simplesmente se sentavam no chão para ouvir os ensinamentos da professora.

Ao término do vídeo fiquei muito triste comigo, pois embora minha escola não fosse bem o modelo que gostaria, eu tinha uma sala de aula, cadeiras, mesas, professores.

Nos minutos finais estava pensativa, se não estava feliz com minha escola, se não concordava como era administrada, deveria lutar pela mudança.

Saí da escola com meus pensamentos fervendo, comecei a listar as prioridades a serem reivindicadas, utilizaria como base essa escola o qual gostei tanto, se ela pode ser assim, vou fazer de tudo para que a minha também o seja, quando de repente caí em uma poça de lama, que se abriu abaixo dos meus pés e lá estava eu novamente,voando rapidamente através de uma luz muito forte, caí, senti uma enorme dor no tornozelo, quando abri os olhos lá estava eu no chão, havia tropicado naquela raiz, não acreditei, havia voltado no tempo, olhei o relógio faltavam alguns minutos para o sinal.

Corri, consegui chegar a tempo para a aula da Dona Enriqueta, e não é que a aula que ela havia preparado era sobre as mudanças ortográficas!!!!Não acreditei e Pensei essa escola tem jeito, só basta querermos!!!

FIM

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